Diálogo com a família é essencial para a inclusão de alunos com TEA
Psicanalista Tania Queiroz dá sugestões de práticas para o desenvolvimento de estudantes com autismo
A inclusão de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma demanda cada vez mais presente nas instituições de ensino. Cientes de seu papel no desenvolvimento integral dos alunos, as escolas buscam constantemente qualificar as práticas pedagógicas e a formação das equipes. É neste cenário de aprimoramento contínuo que se destaca o trabalho de Tania Queiroz, professora, psicanalista, escritora e palestrante, dedicada à capacitação de docentes, gestores e à inclusão a partir das Neurociências e da Psicanálise.
Toda essa experiência a levou a fundar o Instituto Tania Queiroz, que oferece cursos de
pós-graduação para coordenadores pedagógicos. Em entrevista ao Educação em Pauta, a pesquisadora traz contribuições sobre o papel das escolas e dos educadores, abordando desde desafios até sugestões práticas para a sala de aula quando o assunto é a inclusão de crianças com TEA.
Muitas instituições já avançaram nessa questão – criando uma comunicação direta com os pais, por exemplo. A colaboração entre escola e famílias, aliás, é fundamental, conforme destaca a especialista.
Confira a conversa a seguir:
Quais são as principais ações que as escolas e os educadores podem adotar para acolher a criança autista?
Primeiramente, precisamos ir além da simples presença física do aluno na sala de aula e adotar a perspectiva da neurodiversidade. Isso significa observar o cérebro de uma criança ou adolescente autista como uma variação natural e valiosa da mente humana. Quando as escolas acolhem e potencializam todos os tipos de mentes, isso valoriza as forças únicas que muitos autistas possuem, como o hiperfoco, a atenção a detalhes e o pensamento lógico.
Como afirma o autor Stephen Covey: “a inclusão ocorre quando valorizamos e celebramos cada pessoa por sua individualidade, em vez de julgá-la por sua deficiência”. Para sustentar isso na prática, é preciso garantir formação continuada a professores e gestores, com foco em métodos baseados em evidências, como o TEACCH (sigla em inglês para Treatment and Education of Autistic and related Communication handicapped Children, isto é, Tratamento e Educação para Crianças Autistas e com Deficiências Relacionadas à Comunicação), para organizar o ambiente com pistas visuais, agendas e estações, aumentando previsibilidade e autonomia.
Há também o PECS (Picture Exchange Communication System, ou seja, Sistema de Comunicação por Troca de Figuras), para quando a fala é difícil, reduzindo frustração e ampliando participação, e o Modelo Denver de Intervenção Precoce (ESDM, na sigla em inglês), integrando brincadeira com objetivos de linguagem e social em interações curtas e frequentes no contexto de aprendizagem.
Muitas escolas entenderam que capacitar seus educadores é um investimento que gera resultados incríveis, tanto para os alunos neurodivergentes quanto para os neurotípicos.
E quais são os maiores desafios nas escolas brasileiras em relação à inclusão do aluno com TEA?
Com base nas escolas em que dou consultoria sobre esse tema, eu apontaria três grandes pontos de atenção para a inclusão de alunos com TEA nas escolas brasileiras hoje. O primeiro é a necessidade constante de formação dos educadores. É fundamental ter conhecimentos práticos para adaptar uma atividade, como manejar uma crise sensorial e criar uma comunicação efetiva. Sem isso, a inclusão tem mais dificuldade de se tornar uma realidade eficaz na sala de aula.
O segundo é a estrutura e recursos adequados. Ter profissionais de apoio disponíveis. Significa ter materiais pedagógicos adaptados e espaços sensorialmente seguros — com menos ruído, luz controlada e áreas de calma. Um ambiente inadequado se torna uma barreira real ao aprendizado. Como disse Nelson Mandela, “a educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”. Para que essa arma funcione para todos, ela precisa ser acessível a todos.
O terceiro é a evolução cultural. Quando a escola busca ativamente manejar comportamentos desafiadores, ela supera medos e evita exclusões silenciosas. No fim, esses três eixos estão interligados. Superá-los exige um ciclo virtuoso: formação prática gera segurança, recursos adequados viabilizam o trabalho, e uma cultura de acolhimento garante que o aluno pertença a ela.
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Na sua experiência, qual é o papel das famílias nesse processo?
As escolas têm um poder imenso de transformar a jornada das famílias de alunos com TEA, e isso vai muito além do portão da escola. Eu vejo três papéis fundamentais que a escola pode assumir. O primeiro é ser uma fonte de conhecimento prático. A escola pode e deve capacitar as famílias, oferecendo workshops e guias sobre como o autismo se manifesta no ambiente de aprendizagem. Isso significa traduzir a teoria em ações práticas: “como ajudar em uma crise sensorial em casa?”, “quais estratégias de comunicação podemos usar no dia a dia?”. Ao fazer isso, a escola alinha as expectativas e cria uma linguagem comum com a família. Como disse Temple Grandin, crianças autistas precisam de pais e professores que sejam parceiros. Essa parceria começa com o conhecimento compartilhado.
O segundo papel é ser um ponto de conexão e comunidade. Muitas famílias se sentem isoladas. A escola pode combater isso criando espaços de acolhimento, como grupos de apoio mediados por psicólogos ou orientadores. Nesses grupos, pais e mães podem compartilhar experiências, trocar estratégias e, acima de tudo, perceber que não estão sozinhos. Criar essa rede de apoio é tão importante quanto qualquer adaptação pedagógica, pois fortalece quem está na linha de frente do cuidado: a família.
O terceiro, e mais importante, é ser proativa na parceria. A escola pode tomar a iniciativa, criando canais de comunicação abertos e constantes. Isso significa ouvir ativamente as preocupações dos pais, respeitar seu conhecimento – afinal, ninguém conhece a criança como eles. Quando a escola assume esses três papéis, de educadora, conectora e parceira proativa, não apenas facilita a inclusão do aluno, como fortalece a família inteira, criando uma base de confiança e colaboração que permite à criança não apenas aprender, mas florescer.
Que tipo de ajustes práticos podem ser feitos em sala de aula para otimizar a experiência de aprendizado da criança autista?
Primeiramente, é a metodologia de ensino. É fundamental ir além da teoria e aplicar métodos práticos. Isso inclui o uso de ferramentas visuais, como as do TEACCH, para criar rotinas e agendas que oferecem a previsibilidade que esses alunos tanto precisam. Aulas multissensoriais, engajando tato, audição e visão, e as instruções, claras e curtas, divididas em pequenos passos. É com essa visão que desenvolvi uma trilha de capacitação online voltada para educadores da Educação Infantil e Séries Iniciais intitulada Trilhas de Formação para a Alfabetização Inclusiva: Método Fônico Neuroafetivo e TEACCH em Ação.
Segundo, é a organização do espaço físico. A sala de aula precisa ser uma aliada. Um “canto da calma”, com almofadas e fones de ouvido é essencial para que o aluno possa se reequilibrar quando sobrecarregado. Além disso, a redução de estímulos visuais e um ambiente organizado fazem uma grande diferença, diminuindo a ansiedade e facilitando o foco.
Por fim, é a comunicação. Precisamos usar uma linguagem direta e uma escuta atenta à comunicação não verbal, que muitas vezes é a forma mais autêntica de expressão do aluno. Valorizar cada acerto e cada tentativa, por menor que seja, promove um senso de conquista e pertencimento. Interpretar gestos, expressões e movimentos com empatia permite que os educadores respondam adequadamente, transformando a escola em um espaço seguro onde o aluno se sente acolhido para ser quem é.
Com essas adaptações, a escola não apenas facilita a inclusão, mas cria uma ponte para que cada criança e adolescente com TEA possa florescer no seu próprio tempo e jeito.
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