Como a IA otimiza tarefas operacionais e apoia o trabalho docente

Plataformas integradas com inteligência artificial automatizam processos operacionais, possibilitando que educadores priorizem o acolhimento aos alunos

imagem: Magnific

A construção de uma cultura de uso crítico e responsável pela inteligência artificial (IA) é um desafio que requer atenção das instituições de ensino. Quando feita de forma efetiva, a implementação da IA pode reduzir a carga administrativa, permitindo que a escola foque no acolhimento e na qualidade do ensino. 

O diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann, Guilherme Cintra, comenta que a IA generativa chegou às escolas antes que houvesse uma decisão institucional sobre ela. Ele afirma que toda tecnologia educacional passa por uma escolha pedagógica sobre como, quando e com qual finalidade ela é incorporada. 

Segundo ele, a pergunta mais importante sobre o tema não questiona se a IA entrará na escola, mas sim se a instituição vai adotá-la com intencionalidade ou se vai deixá-la se consolidar por acúmulo de práticas individuais.

“Construir uma cultura de uso crítico e responsável exige reconhecer o potencial da tecnologia e, ao mesmo tempo, compreender seus limites e riscos. Mesmo antes da popularização da IA generativa, estudos já apontavam o potencial dessas ferramentas para apoiar a personalização do ensino, identificar dificuldades específicas dos estudantes e oferecer estratégias mais adequadas às suas necessidades”, diz. 

Cintra ressalta que esse potencial é especialmente relevante para estudantes que demandam apoios diferenciados ou estratégias pedagógicas mais individualizadas. No entanto, ele alerta que é preciso reconhecer os riscos associados ao uso indiscriminado da tecnologia.

Quando a IA substitui completamente o esforço intelectual do estudante, há o risco de redução da reflexão, da argumentação e do processo de construção do conhecimento. A aprendizagem exige fricção cognitiva: é por meio do questionamento, da tentativa e do raciocínio que habilidades importantes se desenvolvem. Por isso, um dos elementos mais importantes é estabelecer orientações claras sobre o uso da IA”, salienta. 

O diretor diz que professores e estudantes precisam saber em quais atividades a tecnologia pode ser utilizada livremente, em quais seu uso deve ocorrer com mediação e em quais situações ela não é apropriada. Mais do que criar regras restritivas, trata-se de desenvolver uma cultura baseada em intencionalidade pedagógica, transparência e formação contínua dos educadores para que a tecnologia esteja a serviço da aprendizagem, e não o contrário.

Otimização de processos

Considerando que humanos e máquinas têm papéis complementares no contexto educacional, Guilherme Cintra afirma que a tecnologia deve ser utilizada para potencializar o trabalho dos professores e não para substituí-los ou reinventar completamente a dinâmica da sala de aula. Segundo ele, a IA tem sido aplicada para resolver problemas concretos, como apoiar a elaboração de documentos pedagógicos, acelerar devolutivas de avaliação e simplificar tarefas administrativas.  

“O objetivo é reduzir atividades operacionais que a tecnologia executa com mais agilidade, liberando tempo para que os educadores se dediquem ao que só eles podem oferecer: mediação pedagógica qualificada, acompanhamento individualizado e devolutivas mais sensíveis ao contexto e às necessidades de cada estudante”, analisa.

Todavia, ele reitera que a redução de burocracia não se converte automaticamente em evolução pedagógica. Se o sistema avaliativo permanecer igual, os incentivos também permanecerão. “E os incentivos atuais empurram para que o tempo liberado se traduza em fazer mais do mesmo, mais rápido, em vez de abrir espaço para uma prática diferente”, comenta.

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Inovação na prática

O diretor de Negócios da Cooperativa de Trabalho Educacional Coopeeb, mantenedora dos colégios Concórdia de Porto Alegre e São Leopoldo, Sérgio Lutz, afirma que, embora a inteligência artificial seja um dos temas mais debatidos da atualidade, existe uma grande diferença entre conhecer superficialmente a tecnologia e utilizá-la de maneira efetiva. Segundo ele, muitos profissionais obtêm resultados limitados porque não sabem formular bons comandos ou explorar adequadamente o potencial das ferramentas. Por isso, a escola decidiu abandonar apenas o discurso sobre inovação e investir em uma experiência prática, começando pela capacitação dos professores.

Ele ressalta que os setores administrativos da instituição já utilizavam ferramentas de inteligência artificial há mais de um ano. Nesses departamentos, foram realizadas discussões sobre ética, boas práticas e formas adequadas de utilização, e hoje praticamente todos os colaboradores fazem uso da tecnologia de alguma maneira. Entretanto, a prioridade da instituição sempre foi levar esse avanço para o ambiente pedagógico, onde ocorre o processo de ensino e aprendizagem entre professores e alunos. 

Foi por meio da plataforma Geekie Educação e da consultoria da startup SemeIA Educação que a escola encontrou um caminho para implementar a nova metodologia no final de 2025. Lutz explica que a plataforma auxilia os docentes em tarefas como: planejamento de aulas, elaboração de atividades produção de materiais pedagógicos, além da adaptação de conteúdos para diferentes faixas etárias, perfis de turma e estudantes neurodivergentes, com laudo de TDAH ou TEA (Transtorno do Espectro Autista). 

“Essa IA gera um plano de estudos personalizado para o professor, economizando muito tempo em relação ao preparo das aulas. Além disso, ganha-se um grande tempo de qualidade de vida para o professor”, diz Lutz. 

Para ele, o principal diferencial da solução é sua base de conhecimento. Em vez de recorrer a modelos genéricos, que buscam informações amplas e muitas vezes desconectadas da realidade brasileira. A plataforma foi construída considerando a legislação educacional do país, especialmente a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), suas competências, habilidades e diretrizes pedagógicas, além das características específicas da instituição. Isso proporciona maior segurança aos professores, reduzindo o risco de respostas inadequadas ou baseadas em contextos estrangeiros que não se aplicam ao cotidiano escolar. Lutz aponta que esse aspecto foi determinante para a excelente aceitação da ferramenta. 

O Concórdia conta, hoje, com diversos professores mestres, doutores e até pós-doutores atuando na educação básica, diferente do cenário de alguns anos atrás. Mesmo diante desse alto nível de qualificação e exigência do corpo docente, todos perceberam ganhos concretos no uso da inteligência artificial. O diretor enfatiza que a tecnologia demonstra seu verdadeiro valor quando resolve problemas reais do cotidiano escolar.

Segundo ele, durante o workshop realizado pela SemeIA com os docentes, os professores constataram que atividades que normalmente exigiriam quatro ou cinco horas de trabalho podem passar a ser realizadas em poucos minutos, mantendo boa qualidade nos resultados.

Workshop da SemeIA no Colégio Concórdia rendeu a produção de um e-book | Crédito: Colégio Concórdia, divulgação

O coordenador pedagógico do Colégio Concórdia de Porto Alegre, Anderson Miguel Finger, destaca que essa economia de tempo representa mais do que um ganho operacional. Segundo ele, ao automatizar parte do trabalho burocrático, a inteligência artificial também proporciona melhor qualidade de vida aos professores, permitindo que eles dediquem mais tempo às atividades pedagógicas propriamente ditas. 

“A IA não substitui o olhar pedagógico na atuação do professor. Ela o amplifica, automatizando questões burocráticas e fornecendo dados preditivos para o professor. Inclusive, a nossa ferramenta também gera um relatório de desempenho semanal, que as famílias recebem”, comenta Finger. 

Apesar dos avanços obtidos com professores, alunos e gestão escolar, ainda existe um objetivo importante para o futuro: aproximar também as famílias do uso pedagógico da inteligência artificial. 

Ética no uso da IA 

A escola tem um papel fundamental na formação de toda a comunidade escolar para o uso consciente da inteligência artificial, afirma Guilherme Cintra. Como famílias, professores e estudantes possuem níveis diferentes de familiaridade com essas ferramentas, é importante que a instituição promova orientações claras sobre quando, como e com quais objetivos a IA pode ser utilizada.

O diretor pontua que, quando se fala em ética no uso da IA por estudantes, o critério mais importante não é a ferramenta em si, mas os objetivos de aprendizagem associados a cada atividade. Dependendo do que se pretende desenvolver, como raciocínio, reflexão crítica ou domínio de determinado conteúdo, o uso da tecnologia pode ser mais ou menos adequado.

“Há situações em que a inteligência artificial pode funcionar como um apoio importante ao processo de aprendizagem e outras em que é fundamental que o estudante realize a atividade sem esse tipo de recurso. Por isso, cabe à escola estabelecer critérios transparentes e construir acordos compartilhados entre docentes, alunos e famílias sobre os limites e as possibilidades do uso dessas ferramentas”, afirma Cintra. 

O especialista também afirma que é essencial orientar os estudantes sobre a necessidade de verificar as informações geradas pela IA e de reconhecer adequadamente as fontes utilizadas nos trabalhos escolares. Ele frisa que o uso responsável da tecnologia envolve senso crítico, integridade acadêmica e compreensão de que a ferramenta deve apoiar a aprendizagem, e não substituir o processo de construção do conhecimento.

Cintra reforça que é importante encontrar algo que ele chama de “Fricção Cognitiva Ótima”. O conceito prevê que o estudante mantenha o esforço de reflexão e raciocínio necessário para aprender, ao mesmo tempo em que utiliza ferramentas que auxiliem em etapas como a organização de ideias ou a revisão de textos.

“Se o aluno desenvolve suas próprias ideias e utiliza a IA como apoio para estruturar argumentos ou aprimorar a escrita, a tecnologia pode contribuir para a aprendizagem. Por outro lado, quando ela substitui completamente o processo de pensamento e o estudante apenas delega a tarefa à ferramenta, o objetivo pedagógico deixa de ser alcançado”.

Preservando as competências humanas

Em um contexto de crescente utilização da IA, competências como pensamento crítico, criatividade e autonomia tornam-se ainda mais relevantes. Guilherme Cintra comenta que, embora as novas tecnologias possam apoiar o acesso à informação e a organização de ideias, continua sendo responsabilidade dos humanos analisar conteúdos, tomar decisões e construir conhecimento com intencionalidade. O especialista acrescenta que desenvolver essas competências passa ainda por ensinar estudantes e educadores a compreender que algoritmos não são neutros. 

“Sistemas de IA são construídos por humanos e treinados com bases de dados que podem reproduzir vieses e visões de mundo específicas. Por isso, é fundamental formar usuários capazes de questionar respostas prontas, verificar informações e reconhecer as limitações dessas ferramentas”, reitera.

Ele reforça que é importante estimular a autoria e a diversidade de perspectivas, pois, quando se utiliza a IA sem reflexão, existe o risco de reproduzir padrões cada vez mais homogêneos. “A educação deve fortalecer justamente aquilo que nos torna mais humanos: a curiosidade, a criatividade, a capacidade de fazer boas perguntas e o pensamento crítico. E, acima de tudo, manter as relações humanas no centro do processo educacional, mesmo com o apoio da IA”, finaliza.

5 ferramentas de IA voltadas para a Educação:

  • Gamma App: Cria apresentações de slides, documentos e páginas web em segundos a partir de comandos de texto. (Gratuito com limitações de créditos; planos pagos disponíveis).

  • Curipod: Gera aulas interativas completas com enquetes, desenhos e perguntas abertas para engajar os alunos em tempo real. (Possui versão gratuita; planos pagos para escolas e distritos).

  • Magic School AI: Uma plataforma completa com dezenas de ferramentas para criar planos de aula, avaliações, rubricas e adaptações para inclusão. (Gratuito para professores individuais; plano Plus pago com recursos avançados).

  • Quizizz: Utiliza IA para gerar questionários, flashcards e quizzes interativos e gamificados a partir de qualquer texto ou link de forma instantânea. (Versão gratuita disponível; planos premium para recursos corporativos/escolares).

  • QuestionWell: Cria um banco imenso de perguntas de múltipla escolha, objetivos de aprendizagem e resultados a partir de um texto ou tópico inserido. (Gratuito para funções básicas; plano pago para exportação avançada).

  • Conker: Uma ferramenta focada na criação rápida de quizzes e testes alinhados a diferentes níveis de ensino e habilidades. (Gratuito para uso básico; integrado a planos institucionais).

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