Transparência e alinhamento devem pautar relação com as famílias
Segunda reportagem da série “Família e Escola” revela que diálogo e participação constroem um ambiente harmônico
A relação entre a família e a escola é indissociável do desenvolvimento do indivíduo. Do ponto de vista da formação integral, a construção de valores, a disciplina e o aprendizado precisam andar lado a lado entre o que se vive em casa e na sala de aula. Esse esforço, no entanto, precisa ser de mão dupla – e é o foco da segunda reportagem da série do Educação em Pauta: “Família e Escola”. A primeira matéria trouxe o debate sobre os papéis de cada um e as formas de fortalecer essa união.
“Muitas vezes, a gente vê que a relação acontece partindo das escolas para as famílias, para estreitar a relação, chamando os pais e as famílias. O movimento deveria ser bidirecional, de ambos procurarem”, relata a psicóloga Ana Flávia de Souza, especialista em neurociência do comportamento.
Segundo ela, essa relação não é construída do dia para a noite, mas precisa estar bem estabelecida. Ou seja: é importante começar ou acelerar esse processo. Afinal, quando um filho está na escola, leva sua história, vivências familiares, e isso já é um grande desafio no contexto educacional.
Equilibrar o que cabe à escola e o que compete às famílias exige sempre muita reflexão. O entendimento deve ser no sentido de que todos os agentes da comunidade escolar, enquanto cidadãos, têm responsabilidade sobre essa construção. Isso serve para pais, responsáveis, professores, funcionários e até mesmo prestadores de serviços ou outras pessoas que participem, de alguma maneira, do dia a dia da instituição. “Na psicologia sistêmica, costumamos dizer que somos seres biopsicossociais, então nos constituímos em meio ao outro; a escola é um desses ambientes de constituição. Temos a escola, a família, a sociedade, grupos”, contextualiza Ana Flávia.
O Colégio São Carlos, de Caxias do Sul, conta com a Associação de Pais e Mestres (APM) para conduzir uma relação de proximidade. O professor de Educação Física Fernando Ferraz, que também é pai de aluno, é o vice-presidente do grupo e vê nessa relação uma oportunidade de acompanhar de perto e participar, efetivamente, da jornada acadêmica dos estudantes.
“A escola ouve bastante as demandas que os pais trazem para as reuniões e está sempre aberta a participar. E a APM sempre está presente para ajudar em diversas atividades e manter o diálogo”, conta Ferraz. As atividades da associação incluem a organização de eventos, como a festa junina, além de servir como entidade que congrega aqueles que gostam de estar presentes.
No entanto, o interesse das famílias ainda precisa aumentar. No caso da APM, as reuniões são mensais, por volta das 18h – após a aula da tarde. Os encontros são abertos a todos os responsáveis. Mesmo assim, aqueles que têm alguma demanda costumam informar previamente a um integrante da nominata e acabam não participando.
Ana Flávia pondera que a questão de ser transparente não significa ter a família por perto o tempo inteiro – muitas vezes até impossibilitando que os professores trabalhem. Trata-se de a família estar envolvida com o aprendizado dos filhos, o que pode ser feito de diversas maneiras. “Não precisa estar na escola, mas em casa perguntar como foi a aula, buscar informações sobre o dia a dia escolar”, exemplifica.
Enquanto isso, a APM mantém o trabalho com vigor. A integração com a escola se reforça nos eventos, como na própria festa junina, que é o ápice do envolvimento da associação com a comunidade escolar. “É o maior evento que nós organizamos. O Grêmio Estudantil também participa e, por isso, fica em contato direto conosco. É uma relação muito harmônica”, comenta Ferraz.
Ao mesmo tempo, algumas questões se mantêm bem separadas. Uma delas é no que diz respeito ao pedagógico, cujas decisões cabem à gestão da instituição. Os pais encontram as portas sempre abertas para apontar algum problema ou insatisfação, ao passo que a escola explica de forma franca o que está acontecendo, mas já informa o que está sendo feito. “Da mesma forma que a família quer uma resolução, quando a APM traz um pedido dos pais, a escola percebe que eles estão atentos”, entende Ferraz.
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O esforço conjunto da escola e das famílias deve começar pelo entendimento, de ambas as partes, sobre seus respectivos papéis. Ana Flávia não considera que haja uma inversão nesses papéis, mas reconhece que eles acabam ficando um pouco bagunçados. “Tanto escolas quanto famílias têm o desafio de identificar o seu papel. O que a escola espera, também? Do aluno, da família, da comunidade. Ao mesmo tempo, trata-se de compreender o que a família espera da escola”, acredita.
Nesse contexto, surge também a questão da hierarquia, afinal, os papéis têm como diretriz o cargo ou a função de cada ente da comunidade escolar. Quando todos sabem, com clareza, o lugar bem definido e a função de cada pessoa, fica mais fácil respeitar essa estrutura – e até mesmo questionar eventuais posicionamentos. Quando tudo e todos estão onde devem, fica mais fácil explicar para o estudante o que ele precisa fazer, quem precisa ouvir e quem define as regras, que devem ser respeitadas, sempre tendo o professor como referência na sala de aula.
“O professor está ali para transmitir seu conhecimento, mas essa também não é uma via de mão única: o estudante tem de ter essa construção com o professor. Para isso, é necessário que se tenha o mínimo de respeito e entendimento de qual é o papel do professor dentro da sala de aula”, acredita Ana Flávia.
Em relação à direção escolar, ela sugere que haja clareza sobre suas responsabilidades e, muito importante, sobre os níveis de acesso: quem aciona quem, em que situação, de que forma e por meio de que canais. A escola, assim como a sociedade, precisa ter organização para funcionar de forma saudável.
No fim das contas, tudo se resume a uma convivência que é intensa, diária e marcante. Como tal, não poderia ser diferente: deixa marcas em todo mundo. A questão a ser refletida nessa construção é como cada um quer ser lembrado. Isso diz muito sobre como a instituição e as famílias querem cultivar vínculos e, acima de tudo, educar.
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