A escola privada mais antiga do RS completa 200 anos

Instituto Rio Branco celebra bicentenário preservando o legado luterano dos imigrantes alemães, com foco em educação humanizada e em sua expansão

imagem: Arquivo IRB

Olhar humanizado, ensino de qualidade e inovação são os pilares que sustentam os 200 anos de tradição do Instituto Rio Branco, instituição que comemora o seu bicentenário em 24 de outubro de 2026. Com uma história umbilicalmente ligada à chegada dos primeiros imigrantes alemães ao Estado, no início do século 19, o Instituto Rio Branco foi a primeira escola privada do RS. 

Localizada em São Leopoldo, no Vale do Sinos, a instituição tem sua história entrelaçada à da própria cidade, onde desembarcaram os primeiros imigrantes germânicos em 1824. Naquele período, o Brasil era um país jovem, com uma independência recente e que ainda se estruturava como nação. Ainda não contava, portanto, com um sistema educacional organizado. 

A historiadora do Instituto Rio Branco, Maria Célia Azevedo Lopes, explica que os imigrantes alemães traziam consigo uma bagagem cultural que priorizava o ensino, a instrução e a educação como elementos primordiais. Para os luteranos, que eram a maioria, a alfabetização representava um princípio básico de sua fé, fundamentada na premissa de Martinho Lutero de que, ao lado de cada igreja, deveria haver uma escola. Diante dessa necessidade, em 1826 surgiu a Gemeindeschule (escola da comunidade em tradução livre), que foi o embrião do Instituto Rio Branco, fundado pelo pastor Johann Georg Ehlers.

Inicialmente, a escola não tinha um prédio próprio. As primeiras atividades educacionais, que tinham relação direta com a doutrina luterana, aconteciam de forma improvisada em uma sala localizada no prédio que abrigou os primeiros imigrantes e que hoje é um museu, a Casa do Imigrante, no bairro Feitoria. Desse modo, além de celebrar os cultos religiosos, o pastor Ehlers assumiu a responsabilidade de iniciar o processo de alfabetização das crianças da colônia. 

A transição da escola para o terreno onde funciona ainda hoje, no centro de São Leopoldo, ocorreu em 1835, momento em que a comunidade estabeleceu uma base definitiva para as suas estruturas junto à Igreja de Cristo. Esse período inicial consolidou uma forte identidade germânica, com aulas ministradas inteiramente na língua alemã e sob a tutela dos pastores. 

No primeiro século do Instituto Rio Branco, as aulas eram ministradas em alemão | Crédito: Arquivo IRB

A hegemonia cultural alemã perdurou pelos primeiros cem anos da instituição. Nesse intervalo, a escola adotou a denominação de Deutsche Gemeinschaftsschule (Escola Alemã da Comunidade Evangélica), reforçando o seu papel comunitário e a sua ligação com os imigrantes antes que as pressões de nacionalização começassem a surgir por volta da década de 1920.

Paralelamente às aulas regulares, a instituição manteve por muito tempo um colégio interno masculino. A preocupação central era acolher e garantir uma educação luterana de qualidade para os filhos de famílias que residiam em áreas rurais ou no interior do Estado, impossibilitadas de frequentar a escola diariamente. Esse internato funcionou de forma contínua até o ano de 1964. Do antigo casarão construído na mudança original para o centro de São Leopoldo não restaram vestígios físicos, mas os espaços das salas de aula que integravam o complexo do internato ainda permanecem preservados no campus.

Mudanças na Era Vargas

A professora de História comenta que, após o fim da Primeira Guerra Mundial, na década de 1920, o Brasil deu início a um processo de nacionalização que visava integrar culturalmente as comunidades de imigrantes. Esse movimento político e social ganhou força nos anos seguintes e atingiu o seu ápice durante o período da Segunda Guerra Mundial, sob o regime de Getúlio Vargas (1930–1945).

Maria Célia conta que os registros e boletins escolares da época documentam uma fase de transição e coexistência linguística, na qual textos em alemão e português dividiam o mesmo espaço. Segundo ela, essa transição ganhou força na década de 1930 com as medidas impositivas de Getúlio Vargas, cujos decretos nacionalistas impactaram diretamente nas escolas étnicas espalhadas pelo país.

As novas leis impostas pela Era Vargas proibiram o uso da língua alemã, o porte de materiais didáticos estrangeiros e exigiram que os diretores das instituições fossem cidadãos brasileiros. O impacto dessas proibições refletiu-se diretamente nas alterações de nome da instituição, que passou de Gemeindeschule e Deutsche Evangelische Gemeindeschule para Colégio Centenário, uma denominação em português que celebrava os 100 anos da imigração alemã.

Para se adequar em definitivo às exigências nacionalistas do regime de Vargas, a instituição alterou seu nome para Barão do Rio Branco, homenageando um renomado estadista e diplomata brasileiro. A escolha de uma figura histórica de relevância nacional serviu como uma estratégia de sobrevivência institucional e demonstração de conformidade com o governo vigente.

O coordenador administrativo-financeiro da escola, Ricardo Dall’Olmo, pontua que a escolha do Barão do Rio Branco como homenageado não ocorreu por ligações diretas do diplomata com o luteranismo ou com a escola, visto que ele não possuía vínculos com a comunidade. Essa prática foi comum a diversas outras escolas da época, que adotaram nomes de personalidades como Dom Pedro ou Tiradentes com o objetivo estritamente político de prestar homenagens à história do Brasil e evitar represálias governamentais.

“Há muitas escolas, inclusive da rede Sinodal, que seguiram o mesmo padrão e têm nomes em referência a figuras históricas, como Mauá e Gaspar Silveira Martins. Eram nomes escolhidos aleatoriamente pelas comunidades na época”, comenta Dall’Olmo.

Embora não existam atas que registrem o motivo exato da escolha do Barão do Rio Branco pela escola, sabe-se que o diplomata possuía grande prestígio nacional, tendo sido o responsável por negociar as fronteiras do país e a aquisição do território do Acre. Sua importância histórica foi tão expressiva no Brasil que sua efígie estampou cédulas de dinheiro na década de 1980 e ainda hoje permanece gravada nas moedas de 50 centavos.

Além do nome, a Era Vargas também marcou importantes transformações estruturais na escola. Foi nesse período que chegou ao fim a exclusividade dos pastores na liderança escolar, dando lugar à figura do diretor, que passou a gerenciar administrativamente a instituição.

O colégio passou por diversas mudanças de nome antes de se chamar Instituto Rio Branco | Crédito: Arquivo IRB

Evolução através dos tempos

A trajetória do Instituto Rio Branco teve início antes mesmo da legislação educacional do país, tendo em vista que já operava anteriormente a Dom Pedro I promulgar a primeira lei federal sobre o incentivo à educação e criação de escolas públicas, em 1827. Em seus 200 anos de história, o instituto precisou adaptar-se a todas as mudanças estruturais promovidas pelo governo, evoluindo de escola de primeiras letras para os formatos subsequentes da legislação.

Na década de 1970, a escola iniciou a implementação das séries finais do antigo primeiro grau (sexta, sétima e oitava séries) com base na lei de 1975, além de incorporar o ensino técnico no mesmo período e o segundo grau na década de 1990. 

A historiadora Maria Célia Azevedo Lopes comenta que, após décadas de proibição e ausência forçada devido às leis de nacionalização, o ensino da língua alemã foi reintroduzido na grade curricular do instituto durante a década de 1970. Diferente do formato inicial, do século 19, quando as aulas eram ministradas integralmente no idioma alemão, a língua estrangeira passou a ser um componente curricular específico e uma disciplina dedicada ao seu aprendizado, além dos aspectos culturais germânicos.

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Herança cultural

Outra herança da cultura luterana que tem forte impacto na instituição é a valorização da educação musical desde os primeiros anos da infância. Essa forte ligação com a música e com o aprendizado de instrumentos musicais remonta diretamente aos princípios de Martinho Lutero, que valorizava a arte e era conhecido por tocar flauta e alaúde (instrumento semelhante ao violão moderno). A herança luterana preza pela busca do aprofundamento acadêmico e pelo rigor no conhecimento, elementos que se mantêm como pilares institucionais.

A busca pela excelência acadêmica na virada do século 19 para o 20 também foi impulsionada pela produção de materiais didáticos próprios, desenvolvidos dentro da própria comunidade. Um dos grandes nomes desse período foi o pastor Wilhelm Rotermund, figura de extrema relevância para o contexto luterano de São Leopoldo.

O pastor Rotermund consolidou seu nome como uma figura de destaque na comunidade luterana e no campo da Educação no Rio Grande do Sul por ter iniciado a estruturação dos materiais de apoio que antecederam as grandes editoras modernas. A construção do templo luterano, localizado ao lado do colégio, foi coordenada diretamente por Rotermund, que também providenciou a importação de um órgão de tubos diretamente da Alemanha para compor o espaço religioso. 

Esse patrimônio material e a dedicação do pastor à comunidade reforçam a centralidade de sua figura na memória institucional e no desenvolvimento luterano regional. O legado histórico de Rotermund e de sua esposa, Marie Brabandt, é devidamente homenageado no instituto, visto que seus restos mortais estão armazenados dentro de uma cápsula na igreja adjacente ao colégio.

Formação profissional

Entre 1975 e 2018, o Instituto Rio Branco destacou-se como um polo de formação profissionalizante em São Leopoldo. À época, a escola oferecia uma gama variada de cursos técnicos em áreas como Secretariado, Mecânica, Informática e Contabilidade. Essa diversificação curricular permitiu que gerações de moradores locais concluíssem os estudos já habilitados para o exercício de uma profissão, transformando a escola em uma das principais fornecedoras de mão de obra qualificada para o desenvolvimento econômico da cidade. 

Em 2018, a escola encerrou as suas atividades voltadas ao Ensino Técnico e passou a concentrar sua atuação exclusivamente na modalidade de Ensino Médio regular. Os gestores comentam que esse encerramento ocorreu de forma orgânica e em resposta a uma mudança de comportamento dos próprios estudantes, que reduziram a procura pelas habilitações profissionais com estágio obrigatório e focaram seus objetivos na preparação para exames vestibulares e no ingresso no ensino superior. 

O encerramento do curso técnico em Informática – o último a ser desativado – coincidiu com a expansão do Parque Tecnológico de São Leopoldo (Tecnosinos), que abriga empresas nacionais e internacionais como a SAP. Em substituição à carga horária técnica, a escola inovou ao expandir e aprofundar obrigatoriamente as aulas de língua inglesa, idioma em que são realizadas as entrevistas de emprego em multinacionais. Essa alteração estratégica ampliou o índice de contratação e encaminhamento de ex-alunos para o mercado de tecnologia.

Legado da enchente de 2024

A enchente que devastou o Rio Grande do Sul em 2024 deixou o Instituto Rio Branco sob as águas do Rio dos Sinos, suspendendo aulas, danificando equipamentos e interrompendo o calendário letivo. Apesar dos prejuízos materiais, o desastre ambiental despertou o senso comunitário e a solidariedade, que são muito presentes na cultura luterana. 

“Tem algo que eu admiro muito na história do Instituto Rio Branco, que é o fato de que as pessoas são apaixonadas pela escola. O Rio Branco desperta isso nas pessoas e faz com que elas se empenhem pela escola. Esse senso comunitário foi muito importante ao longo desses anos todos”, comenta a diretora Taciana Feldmann. 

Para recuperar a quadra de um dos ginásios danificados pela enchente, por exemplo, a escola promoveu uma campanha de venda de pizzas congeladas, atingindo a meta estipulada e obtendo o recurso financeiro para a reforma. A diretora define essa capacidade de encontrar soluções simples e práticas para problemas urgentes como a verdadeira essência da inovação.

“A inovação está nos detalhes, não apenas quando se pensa em tecnologia. A inovação ocorre o tempo todo. Inovar é encontrar uma solução diferente para algum problema comum”, sublinha Taciana.

O Instituto Rio Branco fica no centro de São Leopoldo, ao lado da Igreja Evangélica de Confissão Luterana, conhecida como “igreja do relógio” | Crédito: Arquivo IRB

Presente e futuro

O complexo escolar do Rio Branco é composto por um total de sete prédios integrados, todos situados no centro de São Leopoldo, ao redor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana – conhecida na cidade como “igreja do relógio”. Essa infraestrutura robusta divide-se de forma segmentada para o atendimento dos estudantes, contando com um prédio dedicado exclusivamente à Educação Infantil, um para o Ensino Fundamental e outro voltado ao Ensino Médio. Complementando o campus, o espaço dispõe de um auditório utilizado como centro de eventos e dois ginásios poliesportivos, cuja extensão territorial ultrapassa a dimensão de um quarteirão inteiro.

Embora o complexo de prédios da escola apresente modificações e novas construções na parte frontal, a estrutura arquitetônica mais antiga do terreno data da década de 1950. Já a igreja atual, que substituiu a antiga igreja do período imperial, está localizada no mesmo ponto do terreno desde a sua inauguração, no ano de 1911, servindo como referência visual e histórica para a comunidade.

Atualmente, a escola conta com um corpo discente de 804 estudantes de três a 18 anos | Crédito: Arquivo IRB

Olhando para além dessa tradição, o planejamento da instituição para os próximos anos inclui a construção de uma passarela aérea e a consolidação do prédio do Ensino Médio recém-inaugurado, além de avaliar uma futura expansão de unidades para outros bairros da cidade.

Contudo, mesmo diante de todas as transformações físicas e projetos de expansão, a essência do colégio permanece voltada ao cuidado com o indivíduo. “O grande desafio e, ao mesmo tempo, a grande meta da escola é sempre ter essa visão e olhar humano para as pessoas. É a essência pautada nos valores, nos princípios e no conhecimento”, finaliza a diretora.

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