Evolução do ensino inclusivo é destaque no Colégio Santa Doroteia

Referência nos 200 anos da aprendizagem no RS, a escola transformou sua sala de recursos em modelo integrado de Atendimento Educacional Especializado

imagem: Colégio Santa Doroteia, divulgação

Conhecido por transformar o cuidado humano em metodologia, o Colégio Santa Doroteia ocupa um lugar importante no cenário educacional gaúcho. Com uma trajetória que atravessa gerações na Zona Norte da capital, a instituição consolidou-se como uma referência pioneira no Atendimento Educacional Especializado (AEE), mostrando que o acolhimento inclusivo e a acessibilidade não são medidas complementares, mas o próprio eixo estruturante de sua proposta pedagógica.

Para conhecer modelos que inspiram o setor, o SINEPE/RS organizou a Missão Educacional de Porto Alegre, iniciativa integrada às celebrações dos 200 anos do ensino privado no Rio Grande do Sul. Realizada em setembro deste ano, a imersão levou dezenas de gestores, coordenadores e mantenedores aos bastidores de sete instituições de ensino da capital. 

Dando sequência a uma série de reportagens sobre as escolas participantes, o Educação em Pauta publica a segunda matéria, trazendo detalhes sobre o Colégio Santa Doroteia, que abriu suas portas para a comitiva para explorar as práticas consolidadas de acessibilidade e estrutura metodológica que acolhe estudantes neurodivergentes.

Pioneirismo no atendimento

O Colégio Santa Doroteia implementou o Atendimento Educacional Especializado (AEE) em 2004, partindo de uma sensibilização dos professores. A diretora da instituição, Marinice Simon, explica que o movimento de implementação começou como um primeiro passo para que os professores entendessem a importância da escola para todos. “Era preciso que eles tivessem essa clareza de ideias e essa aceitação para, então, se inserirem no processo de educação inclusiva”, conta a gestora.

No primeiro momento, a instituição tinha apenas uma professora de AEE e outras orientadoras com formação específica na educação inclusiva. Um arranjo que, embora inicial, já se desenhava como uma aposta diferenciada para o cenário escolar da capital. “É um projeto desbravador, realmente pioneiro em Porto Alegre, e nasceu dessa sensibilidade da congregação. Essa ideia está no DNA da rede; nós sempre tivemos esse coração aberto e sempre tivemos entendimento de que a escola é para todos”, relembra Marinice.

Para a gestão do colégio, a lógica da inclusão inverte a premissa tradicional de que o aluno deve se encaixar nos moldes da escola. “Não é o aluno da inclusão que entra que vai se adaptar. Isso não é inclusão. Inclusão, e esse é o nosso entendimento, é que a escola esteja preparada: fisicamente, com condições de acessibilidade, e pedagogicamente”, ressalta a diretora, destacando a aposta contínua na formação docente.

O que começou com uma sala de recursos no contraturno evoluiu para um setor complexo e bem estruturado. Hoje, o Colégio atende cerca de 330 estudantes no quadro de educação especial.

Para gerenciar essa demanda crescente e com mais qualidade, a instituição criou o setor de Processos Inclusivos. Daiane Souza, psicóloga e coordenadora da área, explica que a equipe trabalha de forma altamente integrada com o Serviço de Orientação Integrada (SOI). “Não é esse setor que atende diretamente os estudantes da educação especial. Como todos os estudantes de um colégio são atendidos pelo SOI, também mantemos a mesma estrutura”, detalha.

Conforme observa Daiane, a rotina atribulada do AEE muitas vezes leva a escola a um atendimento padronizado que não contempla as particularidades de cada criança. No Santa Doroteia, a visão integrada busca justamente o caminho inverso. “Com os processos, a gente consegue enxergar as necessidades de uma forma categorizada, para fornecer os serviços da educação especial de acordo com a necessidade de cada estudante”, explica.

Estrutura integrada

Na prática, o setor de Processos Inclusivos conta com quatro especialistas em AEE, divididas por segmento – desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Já a antiga sala de recursos cresceu e se tornou o Complexo AEE, inaugurado oficialmente em março de 2026, levando o nome da ex-aluna e gestora Marinice, como forma de reconhecimento pelo trabalho realizado ao longo dos anos. 

O Complexo AEE Marinice Souza Simon possui salas para realização de atendimentos simultâneos. Crédito: Colégio Santa Doroteia, divulgação

Por meio de divisórias acústicas e espaços fechados diversos, a estrutura busca ampliar as condições para que cada estudante seja acolhido em sua singularidade, com equidade no aprendizado e acompanhamento individualizado. Para a psicóloga, esse ganho estrutural se traduz na capacidade de acompanhar cada trajetória sem perder a perspectiva do conjunto.

“Nós temos esse olhar macro justamente por ter uma coordenação de processos inclusivos que consegue enxergar o quadro total, enxergar os movimentos necessários de acordo com o desenvolvimento dos estudantes para, junto com as equipes, poder articular todas as estratégias necessárias”, detalha Daiane, alertando que, sem essa visão ampliada e conjunta, não se consegue personalizar o atendimento de fato.

Além da estrutura física acessível, as tecnologias assistivas têm ganhado protagonismo, especialmente a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), utilizada por vários alunos da instituição. Segundo a coordenadora, isso incentiva a escola a receber especialistas tanto para realizar treinamentos personalizados para atender os estudantes quanto para formação de monitores.

No entanto, Daiane pontua ainda que a tecnologia por si só não basta sozinha. “Eu diria que, mais do que tecnologias assistivas, a personalização do atendimento acaba sendo o que garante o atendimento da necessidade, de fato”, afirma.

Essa adaptação também alcança toda a comunidade escolar por meio de projetos inovadores. Um deles é a promoção da mascote Dora Alice, uma boneca que personifica a diversidade: utiliza abafadores de ruído e uma prancha de comunicação alternativa, e possui um olho de cada cor. A personagem visita as turmas, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, ensinando aos alunos o respeito às diferenças de forma concreta e lúdica.

As ações estendem-se também às famílias dos estudantes e a grupos específicos. A escola desenvolveu o projeto “Potencial em Movimento”, voltado para alunos com altas habilidades e superdotação, e grupos focados em habilidades sociais para adolescentes. Há ainda o projeto “Entre Nós”, criado para amparar famílias atípicas. “É um grupo de acolhimento a famílias atípicas, que tem sido um espaço riquíssimo. Nós fazemos rodas de conversa, oficinas afetivas, todo um momento de acolhimento”, relata Daiane.

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Desafio que orgulha

Ser reconhecido como referência nos 200 anos de história da educação gaúcha não é visto pelo Santa Doroteia como um ponto de chegada, mas como uma reafirmação de seus princípios fundacionais. Para a coordenadora Daiane, o acolhimento dialoga diretamente com o legado de Santa Paula Frassinetti, fundadora da congregação. “Não é possível realizar uma educação pela via do coração e do amor se nós não tivermos o acolhimento e o respeito à diversidade”, avalia.

A diretora Marinice compartilha dessa visão e reforça que a inclusão exige um esforço constante. “Não tem mágica nisso. A escola, por ser referência, não se considera melhor do que as outras. A escola vai encarar um desafio em cada entrada de cada aluno. A gente se vê chamado todos os dias a aderir a esse processo, com muita disponibilidade, com abertura de coração e com o preparo teórico, o preparo acadêmico para assumir esse processo de educação inclusiva”, conclui a gestora.

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