Sala de Humanização: um cantinho para ‘parar e respirar’

No pós-pandemia, escola paulista implantou um ambiente para cuidar do bem-estar emocional dos alunos

por: Tatiana Py Dutra | Especial
imagem: Colégio EAG / Divulgação

Ainda é difícil contabilizar os danos trazidos pela crise sanitária da Covid-19 no contexto da saúde mental. Sofreram tanto os adultos que tiveram de adaptar-se a novos modelos de trabalho, sob a insegurança do desemprego e da própria crise sanitária; quanto crianças e adolescentes, forçados a se afastar de amigos e colegas, expondo-se demasiadamente às telas e à internet, e sujeitando-se a um novo contexto de convivência familiar.

No caminho de volta à normalidade, todos que a pandemia feriu precisaram lidar com suas cicatrizes. Para os mais jovens, porém, conviver com as sequelas pode ser um desafio mais assustador. Foi o que observou a diretora geral do Colégio EAG, de São Paulo, Elisabeth Rodriguez. Ela conta que, apesar de, durante o isolamento, a escola trabalhar com atividades relacionadas à psicologia positiva – abordagem psicoterapêutica que se concentra no estudo e na promoção do bem-estar humano –, com auxílio de pesquisadoras da Unicamp, parte dos alunos voltou para a escola em situação de completo estranhamento e desacomodação.

“Eu observava cada tribo, cada uma de um formato diferente, se agrupando ou se afastando. Então, os melhores amigos já não eram tão amigos… Os que se conheceram pela internet não ‘se reconheceram’ ao vivo… [Para o adolescente] a coisa começa a ficar meio nebulosa, você não parece a mesma pessoa. Eles estavam muito diferentes uns dos outros, já não eram mais as mesmas pessoas e traziam dentro da bagagem muitos medos, ansiedades e frustrações. E aí entra também a questão do relacionamento familiar, que foi intensificado e, ao mesmo tempo, gerou muita, muita insatisfação, tanto das famílias quanto dos jovens”, relata Elisabeth.

Por meio do diálogo, a professora começou a identificar as necessidades dos alunos, de forma a elaborar um meio para que a escola acolhesse e pudesse ajudar a mitigar as dores trazidas após 18 meses de afastamento. Acabou percebendo que, para a maioria, conversar e colocar para fora seus sentimentos era primordial. Essa percepção foi o gérmen da Sala de Humanização, um ambiente criado dentro da perspectiva socioconstrutivista adotada pela escola com a missão de acolher os estudantes e valorizar as relações humanas e as emoções de forma que se sintam seguros e confortáveis.

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“Nasceu como um lugar que eles pudessem ficar e poder falar tudo o que desejassem sem que aquilo fosse levado a outras pessoas e também para que pudessem aprender a conviver novamente em sociedade. Olhar no olho, falar do que gostam e do que o incomoda, discutir como pedir desculpa se magoar alguém. Nessas interações, você começa a alfabetizar o jovem novamente no aspecto emocional”, explica a diretora, que registrou o projeto em uma publicação recentemente certificada pela Câmara Brasileira do Livro.

A “Salinha”, como é chamada pela maioria, é bastante simples. Quatro poltronas, alguns pufes, um mural de mensagens positivas (deixadas pelos próprios usuários), algumas figuras que representam religiões variadas e, por sugestão dos alunos menores, bichinhos de pelúcia. Os tons claros do mobiliário aumentam a sensação de aconchego, nesse que, segundo Elisabeth, deveria ser o “segundo porto seguro” do estudante após o lar. Ocorre que, muitas vezes, é o primeiro espaço de acolhimento que as crianças e adolescentes procuram – tanto para resolver problemas de relacionamentos afetivos, quanto para trazer questões mais pesadas.

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“Quando se sentem muito aflitos, vêm e pedem para conversar, pedindo segredo. Aí, eu digo: não vou contar nada que não seja perigoso para você, mas se estiver em risco, vamos ter de buscar uma solução. Já houve casos de alunos que tinham se automutilado e não sabiam encarar o problema sozinhos. Então, a solução foi combinar com o aluno como seria uma reunião com a família, lá na salinha. Quando eu agendo a reunião, ele já sabe o que vamos conversar e ele se sente mais tranquilo”, exemplifica Beth.

A professora conta que já recebeu alunos sofrendo de depressão e até com ideações suicidas, e se colocou na posição de ajudá-los por meio das conversas na Salinha e, depois, com o apoio das famílias, que nem sempre percebem que os filhos estão emocionalmente abalados. Já em casos de indisciplina ou na resolução de conflitos, são aplicados preceitos da psicologia restaurativa, na qual todos os envolvidos se reúnem para discutir o caso e suas consequências. 

Mas há também estudantes que encontram na Salinha refúgio para hesitações e apreensões. Como o espaço dispõe de recursos de musicoterapia e cromoterapia, o ambiente se torna ainda mais acolhedor para quem precisa de alguns instantes para se reequilibrar.

“Esse é um ótimo lugar para ‘soltar’ aqueles probleminhas que estamos na cabeça, somos sempre acolhidos e isso nos faz sentir melhor tanto nos estudos quanto na vida pessoal”, valoriza Stefanie Monteiro, 14 anos. 

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