Gestão do tempo pode ser ensinada pela escola

Organização das tarefas e acompanhamento individualizado ajudam estudantes a evitar ansiedade e aumentar o rendimento acadêmico

imagem: Magnific

A rotina dos estudantes, assim como da população em geral, está repleta de desafios do mundo contemporâneo. Termos como ansiedade, procrastinação e uso de telas aparecem o tempo todo, como efeitos colaterais de um desenvolvimento tecnológico que cobra o preço. Existe uma ferramenta importante para lidar com tudo isso: a gestão do tempo. E as instituições de ensino podem ocupar um papel central na apropriação dessa competência.

Em 2024, um levantamento feito pela Junior Achievement apontou que 62% dos jovens de sua rede não têm um trabalho de gestão do tempo; 56% não planejam as atividades do dia; e 45% não reservam momentos para lazer. Mesmo assim, a maioria se considera organizada (60%) e garante cumprir prazos e horários (72%).

A organização não governamental atua com foco em educação empreendedora, financeira e preparação para o mercado de trabalho. O levantamento contou com 113 alunos, tendo entre 15 e 30 anos, consultados de forma online. O público se divide entre estudantes (36%), empregados formais (33%), informais (17%) e aqueles que não trabalham nem estudam (14%).

Para o fundador da Escola de Gestão do Tempo, Rafael Medeiros Filho, a frustração com um resultado não alcançado costuma derivar justamente da falta de planejamento. “A força da gestão do tempo é proporcional à força do plano que você cria para o seu dia. Quem não planeja o dia que quer, vai ter que aceitar o dia que vier“, alerta.

No caso dos estudantes, a sugestão é que essa premissa seja adotada para elaborar um plano de estudos. Antes que o dia comece, é importante saber como ele vai terminar. Medeiros sugere o método Pomodoro, que trabalha com blocos de meia hora, sendo 25 minutos de concentração e 5 de descanso mental. É possível dedicar, por exemplo, dois blocos Pomodoro para Matemática e, a cada bloco, avaliar se já vai entrar no seguinte ou resolver outra tarefa antes. 

Nesse bloco de meia hora, é fundamental ficar longe do celular ou outras distrações e colocar um cronômetro regressivo. Focar totalmente por 25 minutos. “Também funciona trabalhar com microvitórias ao longo do dia. É melhor colocar algo menos custoso do que criar um idealismo. O problema é pensar no ideal: vou estudar seis horas. Você até pode, mas qual o plano para isso?”, questiona Medeiros.

Enquanto pomodoro, em italiano, significa tomate, para organizar essa rotina outros dois ingredientes bem conhecidos aparecem – mas não têm nada a ver com comida: são o papel e a caneta. Esses velhos amigos dos estudantes ajudam a organizar a rotina. Melhor do que se orgulhar por não esquecer nada da agenda é guardar essa energia para o que mais interessa.

Ajudar nisso é uma das tarefas do professor de História Daniel Assum, do Colégio Sinodal São Leopoldo. Ele é responsável pelo setor de Suporte Acadêmico, criado pela escola há 15 anos, a partir de uma provocação sua.

Assum percebeu que muitos estudantes que se transferiam para a instituição no começo do Ensino Médio acabavam pedindo nova transferência – muitos deles, por causa da dificuldade para lidar com o ritmo do ensino. A saída, entendeu, era ajudá-los para que dessem conta das novas demandas. 

Além de continuar em sala de aula, ele presta esse atendimento, em conjunto com outro colega. Eles ficam à disposição dos alunos por 24 horas semanais, em sala exclusiva para esse fim. É um trabalho que se difere dos suportes psicológico e pedagógico, trabalhando em conjunto com estes.

“Eu sento com eles, nós olhamos tudo que tem para fazer, qual seria a dedicação possível para os estudos extra sala de aula, para fundamentar o que aprendeu na escola. Esse é o pulo do gato, mantendo equilíbrio saudável de atividades, uma bandeira que sempre defendo”, explica Assum. A intenção não é simplesmente preencher a carga horária e orientar, mas agregar qualidade de vida.

Fazer gestão do tempo, para Assum, significa “largar na frente”. Como exemplo, cita o fato de os alunos do Sinodal terem avaliações toda sexta-feira. Se eles dividem o dia em quatro pequenos momentos de estudo, com 30 minutos de duração (o método Pomodoro pode aparecer aqui) sobre as disciplinas que serão cobradas naquela semana, vai ser muito melhor do que esgotar a quinta-feira – e o mental – com o acúmulo de conteúdo.

Alguns conseguem implementar logo na arrancada e percebem melhora quase imediata. Outros voltam a cada duas ou três semanas para conversar e fazer eventuais ajustes no planejamento. O suporte acadêmico não faz apenas isso, mas parte sempre desse ponto. “Eu quero que ele tenha rendimento escolar, mas também seja feliz enquanto adolescente”, destaca o professor.

A atenção individualizada e personalizada é inegociável, pois cada um lida de uma forma com as atividades eletivas, assim como tem uma rotina pessoal fora da escola. Para Assum, a experiência foi muito positiva desde o primeiro ano. Ele atribui esse sucesso ao fato de o aluno se sentir “olhado e cuidado”, aprendendo que ter melhor rendimento não depende apenas da dedicação, mas de um entendimento melhor sobre si mesmo – desde a percepção sobre o que tem errado nas avaliações: se é uma carência de domínio do conteúdo ou de compreensão do enunciado, de concentração ou mesmo ansiedade.

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Gestão da energia

Se anotar as tarefas, leva a economizar energia; outras medidas da rotina ajudam a criá-la. Sono e alimentação de qualidade e prática de exercícios físicos estão entre elas. Neste caso, entra o papel da família, pois pouco resolve ter um planejamento adequado se a criança ou adolescente fica até tarde diante de telas e acorda cansado.

Medeiros explica que o primeiro instinto do cérebro é guardar energia, buscando comportamentos com pouco gasto energético. Por isso, todo gestor competente do tempo tem que aprender a gerenciar suas emoções. Para ele, a grande maturidade consiste na capacidade de lidar com os prazeres do dia. “Ele [o prazer] tem que existir, mas como recompensa, desfrute de um dia bem executado. Queremos nos sentir bem o tempo inteiro, mas a melhor satisfação é paradoxal ao bem-estar imediato”, garante.

Para o caso das telas, ele traz uma dica. O cérebro funciona melhor com adição do que com subtração, por isso, quando se tira algo sem dar nada para ocupar aquele lugar, ocorre um sentimento de privação da liberdade – como uma proibição injustificada. “Se você tira a liberdade de tomar algumas decisões na vida, vai gerar esse efeito e ter problemas depois. Mas também não podem ter total liberdade”, pondera.

A solução que encontrou com as próprias filhas foi delegar o gerenciamento do tempo, dentro de um limite estabelecido por ele. Elas têm meia hora para assistir à televisão, diariamente, mas distribuem esse tempo da forma que julgarem conveniente. Nas férias, o tempo até aumenta, mas a sistemática é a mesma.

Assum, lembra que, em 2025, o Sinodal fez trabalhos sobre o livro A Geração Ansiosa, de onde tirou importantes lições. Ele vai na mesma linha de Medeiros em relação ao resultado como fruto de um esforço maior. “Eu digo para os alunos: um dia produtivo te faz sair cansado, mas satisfeito. É diferente do esgotamento, que significa que sua energia foi para o lugar errado. Esse ajuste no hábito faz com que seja produtivo, consiga lidar com equilíbrio”, aponta.

Esforço conjunto

O professor e orientador entende que cada elo tem uma função nessa corrente. A escola tem o papel de apontar e ajudar a implementar o que acredita ser o melhor. Ao estudante, cabe olhar para si e se entender no processo. À família, cabe ser parceira e acolher isso, sendo responsável pela sua parte. “Falo como pai, também, pois meu filho estuda aqui. Não posso achar que estou terceirizando a responsabilidade educacional como exclusivamente da escola. Preciso ajudar essa criança ou adolescente a ser melhor, mais organizado com seus tempos e demandas e se tornar um adulto saudável no fim das contas”, observa.

A combinação entre a rotina da escola e a familiar também leva, por vezes, a um acúmulo de tarefas. Para Medeiros, isso se chama mundo real. “A escola é uma preparação para o estudante saber como é o mundo real, então não dá para criar um mundo ideal”, defende. 

Assim entende que os estudantes podem, de fato, fazer muitas coisas, mas ressalta que nem sempre é necessário ou indicado. É preciso sobrar tempo para brincar e aquele ócio necessário para criar, também. Caso contrário, a pessoa se torna um fazedor de tarefas.

No dia a dia, a sala de suporte acadêmico do Sinodal continua concorrida. Os estudantes marcam hora e vão pedir ajuda para organizar suas rotinas, compreender as lacunas e avaliar se estão evoluindo. Quando não fazem isso, mas os orientadores entendem necessário ou as famílias pedem apoio, eles vão à sala de aula e chamam o aluno para conversar. O mais interessante é que eles recebem esse convite com total apreço – e os colegas, com naturalidade. A importância do autoconhecimento durante a jornada estudantil está consolidada.

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