Miguel Arroyo ajuda a enxergar a dimensão humana no ato de educar

Confira algumas reflexões apresentadas pelo educador e filósofo em jornada acadêmica do Colégio Santa Inês, de Porto Alegre

por: Pedro Pereira | pedro@padrinhoconteudo.com
imagem: Colégio Santa Inês, divulgação

Miguel Arroyo olha para o ato de educar com a experiência de quem acumula uma sólida formação acadêmica. Aos 91 anos, fala sobre o campo da educação com a mesma motivação que o fez ingressar na carreira: olhar para o ser humano. Em fevereiro deste ano, ele participou da jornada pedagógica do Colégio Santa Inês, de Porto Alegre.

“Eu gostaria de estar presente, mas o médico disse para ficar quieto em casa”, justificou, de forma bem-humorada, ao se apresentar aos mais de 100 educadores por meio de uma videoconferência. “Aceitei participar porque a formação humana é minha área. Sempre defendi que a função primeira da educação é formar o sujeito humano. Isso está nos meus livros, na minha memória e na minha trajetória”, completou.

Nascido no interior da Espanha, Arroyo diz que a centralidade na dignidade humana, marca de sua carreira, está atrelada às desumanidades que viveu e continua testemunhando. Ainda criança, migrou com a família para o Brasil em busca de paz, quando a Europa vivia as turbulências da Segunda Guerra Mundial.

Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Arroyo tem mestrado em Ciência Política pela mesma instituição, onde é professor emérito. Desenvolveu seu doutorado em Educação na Stanford University (Estados Unidos) e o pós-doutorado na Universidade Complutense de Madri (Espanha). Além disso, é Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal Fluminense (UFF), pela sua contribuição à educação do Brasil.

O educador, filósofo e professor compartilhou sua experiência com a comunidade escolar do Santa Inês. O Educação em Pauta reproduz, a seguir, os principais trechos da exposição apresentada por Arroyo. 

Aos 91 anos e em plena atividade, Miguel Arroyo participou da jornada acadêmica do Colégio Santa Inês por videoconferência | Crédito: Colégio Santa Inês, divulgação

Compromisso com a dignidade humana

“O primeiro ponto necessário para nosso ofício seria aprender com Paulo Freire a desconstruir a docência. Não é fácil desconstruir a docência – não como compromisso com a dignidade humana, mas a docência bancária, de que Paulo Freire tanto nos fala no livro “Pedagogia do OprimidoNão haverá como avançar na construção de um ofício docente comprometido com a dignidade humana sem desconstruir a educação bancária, que persiste tão forte em nossa tradição educadora. 

O segundo ponto é que não será suficiente desconstruir a docência bancária. Será necessário afirmar uma docência humana. Escrevi o livro “Ofício de Mestre” quando era secretário municipal de Educação em Belo Horizonte. Eu chegava nas escolas e perguntava:

– Educadora, educador, está tudo bem?

– Não, Arroyo.

– Por quê?

– Porque me educaram na faculdade de Educação, na de Licenciatura, para ser docente. Mas se essa docência não é possível com esses educandos, não sei qual é a minha docência, o meu ofício.

Por isso coloquei o nome “Ofício de Mestre” no livro. A nossa docência é mais do que docência. É um ofício. Quando eu falo como professor – e agora não estou falando só como professor Arroyo, estou falando como Arroyo –, estou falando da minha história, da minha vivência. 

Sempre que damos uma aula, não estamos só falando sobre o esquema que fizemos dela, estamos conversando sobre nós. Esse é nosso ofício. Estamos expondo nossa forma de pensar, nossa forma de sentir, nossa forma de ser, nossa forma de ver o mundo.

Um terceiro ponto: vocês falam em compromisso com a formação humana, com a dignidade humana. Mas que dignidade humana? Quando fui secretário de Educação em Belo Horizonte, criamos a Escola Plural. Para mim, escola plural é aquela que reconhece a pluralidade de dimensões com que trabalhamos na docência humana.” 

O tempo humano de cada um

“A formação humana não é apenas a formação de um aspecto da condição humana. Eu gostaria que vocês se fizessem essa pergunta: nós queremos uma docência comprometida com a formação humana, mas com que dimensões da formação humana?

Uma coisa é formar como humano minha netinha, que está com um ano e 3 meses, e outra coisa é formar como humano o meu neto, que está com 25 anos. É diferente de outro que está com 12 anos, ou outro que está com 6 anos. 

Se vocês me perguntam: ‘Arroyo, em que idade você está?’, eu digo que já estou na velhice. ‘Você continuará formando-se como humano? Em que tempo humano você está? Esta pergunta é fundamental. Não existe um modelo de humano.

Em cada tempo, somos obrigados a viver nossas vivências de maneira diferente. Qual é o meu ofício, com a especialidade do tempo dos humanos com os quais eu trabalho? Esta é uma pergunta nada fácil de responder. Temos que ter coragem de colocá-la em cada tempo humano.”

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Sujeitos, saberes e conhecimentos

“Temos direito a saber pensar, a ler o que outras pessoas pensaram. Temos direito a aprender com a pluralidade de saberes humanos. Mas, se vocês são professoras, não vejam os seus alunos apenas como tábuas carentes de capacidade de pensar, que vão ter que pensar lendo o que os outros já pensaram.

Os outros têm que ser reconhecidos sujeitos de saberes de si mesmos, de seu viver. No livro “Currículo, território em disputa”, eu coloco uma série de questões que me parecem fundamentais. O currículo é a síntese dos conhecimentos – mas de que conhecimentos? Se o currículo tem a função de formar os que ainda estão vazios de conhecimentos em mentes cheias de conhecimentos, quais são esses conhecimentos? 

Educadoras e educadores têm a coragem de criticar a área em que vocês estão? Eu sei que vocês são licenciados em algumas das áreas, mas tenham coragem de fazer essa pergunta. Será que essa formação não é uma imposição de conhecimentos e uma forma de não reconhecer que todos vocês – eu, meus filhos, meus netos, até minha netinha – somos sujeitos de conhecimentos?

Estou vendo que a maior parte de vocês são mulheres. Os saberes que vocês têm como mulheres sobre vocês mesmas são muito diferentes dos meus. E os saberes de um homem, que estou vendo ali atrás, são outros. Nós não somos apenas tábuas rasas nas quais foram depositados saberes únicos. Somos sujeitos de saberes diferentes. 

Paulo Freire critica que a pedagogia bancária vê os outros como contas vazias de saberes. Vocês já superaram essa visão de que os educandos são contas vazias de saberes? Eles são sujeitos de saber de si, de seu lugar, de sua raça, de seu gênero, das precariedades a que são condenados, de suas resistências.”

Educação em contextos individuais

Quando fui secretário municipal de Educação, eram 300 mil crianças, 300 escolas e não sei quantos educadores das infâncias, das vidas das favelas. A pergunta que eles me colocavam era: ‘Arroyo, eu ensino muitas coisas para meus alunos, mas não sei nada do que eles são, quem eles são. Eu me formei, mas ninguém me explicou quem eram os educandos com quem eu iria trabalhar. Eles me falaram que são ignorantes, que são iletrados. E você tem que ensinar, mas uns aprendem, outros não. Será que não têm capacidade de aprender? Ou os saberes que eu ensino não coincidem com os saberes que eles já têm?

Essas são questões que nós temos que colocar. Se vemos os alunos com as contas vazias de saberes, estaremos com uma missão bancária, depositando saberes. Mas se reconhecemos que eles são os sujeitos de saberes de si, de seus familiares, de sua condição humana, aí os meus saberes terão que ser outros.”

Culturas e vivências

“Os currículos falam muito em conhecimento e esquecem da cultura. Mas o conhecimento é uma expressão da cultura. Como formar sujeitos de culturas? Se olho para a minha vida, o que me formou como humano? A minha cultura.

A minha cultura camponesa, lá naquelas terras da Espanha, meus pais e meus avós camponeses. A cultura da terra, do cultivo, perceberam? Cultivo e cultura. A cultura da vida, de plantar para a vida, essa é a cultura.

Que centralidade damos à cultura como matriz de forma humana? Esta seria a pergunta radical deste ponto. Mas eu ainda acrescento uma outra: dentro da diversidade cultural que temos em nosso país, qual a centralidade da cultura como matriz de formação humana? Da diversidade de humanos que temos em nosso país e que chega às escolas? Esta pergunta é muito séria. Como dar centralidade a essa diversidade cultural na formação humana de sujeitos culturalmente tão diversos? 

A nossa conversa é sobre como fazer com que eu, professora de linguagens, seja formadora de sujeitos humanos completos por meio da linguagem? E como fazer com que eu, professor de matemática, seja não só professor de matemática que ensina lógica matemática, mas que também seja educador de todas as dimensões da formação humana, por meio da matemática, ou da geografia, ou da história.”

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