Parcerias globais promovem a modernização da prática pedagógica

O intercâmbio com universidades estrangeiras fundamenta a atualização docente e o desenvolvimento de competências mundiais

por: Pedro Pereira | pedro@padrinhoconteudo.com
imagem: Comunicação IENH, divulgação

A educação caminha no sentido de tornar o estudante um protagonista de seu próprio aprendizado, por meio de metodologias ativas que instiguem a curiosidade, técnicas de investigação e solução de problemas. As competências derivadas desse percurso fazem dos egressos da Educação Básica cidadãos capazes de performar em diferentes aspectos, em praticamente qualquer lugar.

Para estarem alinhadas com o que se faz em países que são referência, muitas instituições optam por se aliarem a programas de ensino internacionais. Isso não implica, necessariamente, na adoção de um currículo do exterior — mas permite que se revisitam os seus próprios documentos pedagógicos, a fim de promover as adaptações necessárias.

A implementação de sistemas globalizados pode ser um atalho atraente e até mesmo uma janela de contato direto com o resto do mundo. É o caso do Colégio Farroupilha, que desde 2010 conta com o Cambridge English Assessment. O departamento é responsável pela preparação dos estudantes para os exames de proficiência. 

Quando a relação com a instituição europeia começou, apenas cinco estudantes da 3ª série do Ensino Médio tinham a graduação mais alta (níveis C1 e C2). Hoje, 499 alunos alcançaram o mesmo patamar – representando 76% dos que estão entre o 9º ano do Ensino Fundamental e a 3ª série do Ensino Médio. Mas esta é apenas uma das vantagens, relacionada diretamente ao idioma.

Recentemente, o colégio deu mais um passo e se tornou a segunda Cambridge Assessment International Education do Rio Grande do Sul. Uniu-se à Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), que há mais de duas décadas trabalhava com o currículo bilíngue da universidade. Em 2017, aderiu ao Assessment Education.

“A gente prepara as crianças para um mundo diferente. O diferencial é que os estudantes se tornam aptos para se graduarem no Brasil e no mundo. Temos intercâmbio com uma escola do Canadá, para alunos do 9º ano. Um deles se destacou em um summer camp e resolveu ficar; depois veio compartilhar essa experiência com os demais”, conta a coordenadora do currículo internacional bilíngue da IENH, Luciana Brentano.

O sistema Cambridge International Education conta com mais de 10 mil escolas parceiras, em 160 países. Embora desenvolvidos em Cambridge e com uma influência importante do currículo inglês, os programas de ensino bebem na fonte de todos os países onde estão presentes. Os materiais didáticos, estes sim, são produzidos exclusivamente em língua inglesa. 

Na IENH, de Novo Hamburgo, o programa de Cambridge já era adotado no Ensino Fundamental e agora chega às crianças com o Early Years | Crédito: Comunicação IENH, divulgação

O papel do professor

Enquanto a criança é estimulada e faz perguntas, o educador é fundamental para guiá-la até as respostas. No programa de Cambridge, os professores contam com material de apoio e momentos de capacitação. Uma plataforma de suporte acadêmico oferece referências teóricas sobre temas como metacognição e aprendizagem lúdica – incluindo um suporte sobre as similaridades entre as abordagens montessoriana e reggioemiliana, por exemplo. Entre as ferramentas estão sugestões de implementação, atividades e avaliações.

“A plataforma oferece todo o apoio de recursos, como um material digital que traz o planejamento das aulas em cada área de aprendizagem, material fotocopiável para download, carta aos pais, sugestões de atividades, histórias, vídeos, áudios, com todas essas referências e documentos para o professor trabalhar as atividades”, detalha a Schools Development Manager de Cambridge no Brasil, Roberta Lima.

Luciana, da IENH, defende que é preciso ter sempre em mente as necessidades de investimento quando se decide implementar um currículo internacional – e salienta que a formação de professores está entre eles. Apesar de ser um currículo internacional que chega em inglês, ele acaba sendo utilizado nos dois idiomas. Sendo assim, os professores também utilizam o programa nas aulas ministradas em português, com um olhar internacional desde a educação infantil.

De posse das metodologias sugeridas por Cambridge, o professor pode escolher entre continuar fazendo como costumava, adotar o plano do programa internacional ou fazer uma mescla entre ambos. O mesmo funciona para o idioma: pode ministrar a aula em português e o estudante responder em inglês, por exemplo — tal possibilidade é assegurada com aulas do idioma estrangeiro para os professores de todas as áreas do conhecimento, à noite.

Novidade entre os pequenos

A adoção de cada etapa do modelo/sistema internacional é independente. A IENH já adotava o currículo bilíngue há mais de 20 anos e, desde 2018, era uma Cambridge International School. Tudo começou pelo Lower Secondary, com alunos do 7º ao 9º ano. Em 2021, o Primary chegou para os estudantes do 1º ao 6º ano. Os componentes curriculares foram introduzidos gradativamente. 

Em 2023, Cambridge apresentou o Early Years, para crianças entre três e seis anos de idade. A adesão da IENH foi natural. Já para o Farroupilha, este foi o primeiro passo em relação ao currículo — mas o colégio já olha para o futuro. Ciente da possibilidade de expandir sua atuação enquanto uma Cambridge International School, já adquiriu o direito de aderir às demais etapas.

“Poderíamos investir só no Cambridge Early Years, mas optamos por todo o programa. Desenvolvemos um departamento para que todo professor tenha acesso. Se ele quer, por exemplo, ensinar sobre eletricidade, em Física, para 9º ano, pode olhar no programa de Cambridge como isso é apresentado”, explica a gerente do Centro dos Exames da Universidade de Cambridge e das Línguas Adicionais do Colégio Farroupilha, Luciane Calcara. A ideia é aproveitar, em toda a educação básica, a estrutura de ensino baseada em investigação, em que o estudante experimenta antes de conceituar.

Roberta Lima explica que, no Cambridge Early Years, o foco não é ensinar a língua inglesa, mas desenvolver a criança de forma holística. O programa foi estruturado em quatro áreas de desenvolvimento: físico, cognitivo, socioemocional e de comunicação. Tudo é feito de maneira lúdica, por meio de atividades — modelo chamado de play-based learning

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As áreas do conhecimento são trabalhadas tendo a língua inglesa como ferramenta, ao mesmo tempo em que ela vai sendo desenvolvida em paralelo. Além disso, na área de desenvolvimento de comunicação e linguagem, é trabalhado o idioma propriamente dito, com vocabulário, referências e a utilização da língua em si — de maneira informal, para familiarização.

O programa Early Years completa a jornada de Cambridge para a Educação Básica: a partir dos cinco anos, os estudantes contam com o Cambridge Primary. Acima de 11 anos, eles entram no Lower Secondary, seguido pelo Upper Secondary (14 anos) e culminando no Advanced (acima de 16 anos). 

Estrutura e abordagens

A adoção do programa pelo Colégio Farroupilha coincide com a inauguração do novo prédio dedicado exclusivamente à Educação Infantil. Segundo Luciane, tudo dialoga muito bem. A estrutura foi pensada de acordo com o desenvolvimento do ensino na primeira infância, dentro do conceito Reggio Emilia. As salas têm aparência de casa, mas em um ambiente que provoca a curiosidade da criança.

“O programa de Cambridge também tem teorias baseadas em Reggio Emilia. Tudo que está no papel consegue ser efetuado no prédio, que foi criado com essa concepção. A gente fala em campos de experiência: a criança vê e toca, é tudo concreto, então começa a fazer perguntas. O ambiente estimula isso”, explica Luciane. 

Salas do novo prédio do Farroupilha, integralmente voltado à Educação Infantil, lembram o ambiente de casa, inspiradas no conceito Reggio Emilia | Crédito: Rodrigo Lino/Colégio Farroupilha, divulgação

Implantação

Para aderir ao Cambridge Early Years, as instituições contam com a consultoria e o suporte da universidade desde a orientação sobre os materiais a que vão ter acesso e como utilizá-los. O processo de registro pode durar de dois a três meses, com documentação enviada para a Inglaterra, visita à escola para aprovação, rodadas de conversas com professores, estudantes e gestores para entender os espaços e saber da capacidade de adaptação da Educação Infantil ao programa. 

“Tem uma parte que cabe à escola, que é grande parte do todo. É como se eu desse todos os ingredientes e ela fosse dando seu toque para misturar e fazer o bolo ficar bom e bonito. A mágica acontece dentro da escola. É preciso que ela tenha o compromisso de entender o programa, estudar o material e ler as referências. Como ele traz flexibilidade, deve fazer com que fique com a cara da instituição”, explica Roberta.

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