Apagão de professores preocupa especialistas

Estimativa aponta para um déficit de 235 mil profissionais em sala de aula até 2040. No Estado, número chega aos 10 mil professores

por: Pedro Pereira | pedro@padrinhoconteudo.com
imagem: Freepik

Às vésperas do Dia do Professor, o SINEPE/RS atenta para este dado preocupante com o objetivo de valorizar e reconhecer que, sem docentes qualificados, o Brasil simplesmente para. Segundo a pesquisa “Risco de ‘apagão’ de professores no Brasil”, promovida pelo Instituto Semesp – centro de inteligência analítica da entidade que representa as instituições de Ensino Superior no Brasil –, o déficit de professores em todas as etapas da Educação Básica pode chegar a 235 mil, até 2040. 

Segundo o IBGE, o país deve chegar ao ano de 2040 com pouco mais de 40 milhões de pessoas com idade entre 3 e 17 anos. Com uma taxa atual de 20,3 cidadãos nessa faixa etária para cada docente em exercício na Educação Básica, serão necessários 1,97 milhão de professores para manter essa proporção. 

O problema é que, mantendo as mesmas taxas de crescimento no número de professores aferido em 2021, a estimativa vai no sentido contrário: o país terá 20,7% menos docentes. Isso representa um total de 1,74 milhão, ou 235 mil a menos do que seria necessário. Naturalmente, tem-se que o número de brasileiros que sonham com a carreira docente também diminui.

Com base em relatório do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), divulgado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a taxa de alunos de 15 anos que querem ser professores despencou de 7,5% para 2,4%. A baixa procura tem algumas explicações, como a pouca valorização – tanto social quanto econômica – da profissão.

“Dentre os principais fatores que nos levam a esse cenário está a necessidade de valorizar a carreira docente ao ponto de ser atrativa financeiramente nos aspectos de formação e nas condições dos locais de trabalho, para que jovens possam considerar a docência não como um anexo, não como um bico, mas como uma opção profissional”, acredita o diretor de Formação Docente e Valorização dos Profissionais da Educação da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação, professor doutor Lourival José Martins Filho. 

Segundo ele, a estratégia para evitar este apagão passa pela definição de políticas públicas de estados e municípios que coloquem o professor como protagonista, já que são fundamentais neste processo. “A docência deve ser exercida por profissão. Não por sacerdócio, nem por vocação, mas como escolha profissional”, defende. 

Rio Grande do Sul também está em alerta

O déficit na Educação Básica no Estado, em 2040, deve alcançar a marca de 10 mil professores. Os dados são de um levantamento feito pelo Observatório Sesi da Educação, divulgado em outubro deste ano. Assim como o estudo do Semesp, a pesquisa também leva em conta dados sobre a relação aluno-professor e projeções demográficas.

Os números apontam que o Rio Grande do Sul terá 83.783 docentes em atividade em 2040, mas a demanda de alunos exigirá um contingente de 94.137 professores – o que configura um déficit de 10.354 profissionais nas redes pública e privada. “Temos um tempo. Não muito, mas temos. Precisamos de algumas etapas, a primeira é reverter esse status do docente dentro da sociedade”, aponta a gerente da área de Educação do Sesi-RS, Sônia Bier.

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Melhorar os processos de formação e a estrutura de trabalho dos professores são passos seguintes, segundo ela. Além do espaço físico, é preciso pensar em uma carga horária compatível com a formação continuada e com uma vida pessoal saudável. Mais do que isso: o professor precisa vislumbrar possibilidades de crescimento na carreira.

“Para melhorar o contexto, é necessário que estados e municípios apliquem a lei, que as condições das escolas sejam melhores, em termos estruturais, e que realmente se valorize quem já faz um excelente trabalho nas escolas deste país. Há que se destacar que vários educadores e educadoras já fazem um trabalho exitoso e esses trabalhos precisam ser reconhecidos”, acredita Lourival.

O sinal de alerta já está aceso no Estado. O governo gaúcho lançou este ano o programa Professor do Amanhã. Sancionada em outubro pelo governador Eduardo Leite, a lei define que estudantes da rede pública que quiserem ser professores podem frequentar instituições de ensino superior comunitárias, gratuitamente. Além disso, recebem bolsa mensal de permanência, no valor de R$ 800 – mesma quantia alcançada à respectiva instituição de ensino.

A estimativa do Piratini é que, até 2026, R$ 57,6 milhões sejam investidos no custeio das vagas. Para fomentar o crescimento no número de docentes, foram contemplados os cursos de Letras, Matemática, Biologia, História e Geografia. 

Formação nas universidades

Com o mundo exigindo cada vez mais competências de professores e alunos, as universidades tomam um papel ainda mais importante. A formação de docentes precisa acompanhar esse dinamismo, sem ser muito teórica, tampouco excessivamente prática. “Os currículos têm um capital muito grande de teoria e pesquisa para entender como a criança aprende, o que é imensamente importante. Mas, além disso, é preciso construir abordagens que façam isso acontecer e testá-las em diferentes realidades. Esse currículo precisa ser mais vivo e dar condições para que este aluno [de graduação] vá estabelecendo as formas mais eficientes de poder ensinar”, analisa Sônia Bier.

Entre as medidas adotadas pelo Governo Federal no sentido de valorizar a carreira do professor, Lourival destaca o diálogo permanente com estados e municípios para que a “lei do piso” se concretize, oferecendo qualificação ao trabalho do professor e repassando recursos para a melhoria das escolas. Além disso, tem como uma das metas o fortalecimento das universidades como órgãos específicos da produção de conhecimento.

“Por meio de uma ação conjunta com todas as secretarias do Ministério da Educação, o governo vem trabalhando na perspectiva de fortalecer a política nacional de formação docente, o que implica a valorização das formações inicial e continuada. Existe a prerrogativa de valorização desse profissional com mais ofertas de cursos de licenciatura e de pós-graduação”, garante.

Para o Semesp, é indispensável discutir as condições de acesso e de qualidade no ensino de cursos voltados para licenciaturas no Ensino Superior, especialmente nas áreas com maior carência de professores.

Causas e efeitos

Diversos fatores contribuem para que se chegue a um cenário tão preocupante. O déficit agudo que se avizinha passa pelo desinteresse do jovem em seguir a carreira de professor. 

O envelhecimento do corpo docente, nos últimos anos, é outro problema. Muitos estão prestes a deixar a carreira. O número de docentes jovens em início de carreira (até 24 anos), caiu pela metade entre 2009 e 2021. Já o número de professores mais experientes (50 anos ou mais) teve crescimento de 109% no mesmo período.

O Semesp indica duas possíveis explicações para o envelhecimento dos professores da Educação Básica. O primeiro é o não crescimento dessa etapa de ensino, resultante da estabilidade do crescimento demográfico. Ou seja: com menos crianças nascendo, menos jovens têm espaço para dar o pontapé inicial na carreira.

Já a segunda explicação reside no desinteresse dos jovens pelo magistério, implicando redução no número de formandos mais jovens. Para se ter uma ideia, no ano de 2016 era 1,9 professor com mais de 50 anos para cada docente de até 24 anos. Em 2021, dado mais recente, esse índice já havia saltado para 3,9 experientes para cada jovem professor.

“Entre os efeitos, podemos destacar que a formação futura nacional estará comprometida se não tivermos professores que abracem a profissionalidade docente e façam a diferença nas escolas. A figura do professor e da professora, a figura dos profissionais da educação é fundamental na construção deste país”, sentencia Lourival.  

Por tudo isso, a ideia de valorização dos professores deve sair do discurso e passar à prática, dentro e fora das instituições de ensino. As lideranças da Educação, assim como toda a sociedade, precisam entender que é necessário – e urgente – reconhecer e premiar o trabalho docente na Educação Básica.


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Estratégias precisam ser colocadas em práticas para evitar que faltem 235 mil docentes no ano de 2040

Valorização da figura do professor

A sociedade precisa voltar a ver o docente como um personagem de destaque. A valorização social teve uma retomada tímida durante a pandemia – muitas vezes dedicada ao fato de o filho estar na escola e menos à figura do professor, propriamente dita. Com esse reconhecimento, consequentemente se chega ao próximo passo.

Remuneração 

Uma vez que a sociedade valorize a figura do professor, ela empreenderá o esforço necessário para traduzir isso em um salário mais atrativo, a exemplo de países desenvolvidos. 

Currículo das licenciaturas

A formação de novos docentes precisa acompanhar as demandas do mundo contemporâneo. Cursos que equilibrem atividades teóricas e práticas saem na frente neste ponto. Já a aproximação com a sociedade, que hoje reside basicamente em cursos de extensão e projetos de pesquisa, pode crescer durante a graduação, contribuindo para a valorização da figura do professor.

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