Conheça os avanços e as perspectivas para o ensino técnico no RS em 2026
Como a instrução profissionalizante planeja superar entraves culturais e gargalos financeiros para transformar a economia local
Quase 60% das matrículas em cursos técnicos do Rio Grande do Sul estão na rede privada. Com a ampliação de oferta na Educação a Distância (EAD), o Estado registrou crescimento de 26% nas matrículas para o ensino técnico na última década. As inscrições subiram de 116,5 mil, em 2014, para 147,5 mil em 2024, segundo dados do Censo Escolar do Ministério da Educação (MEC), estudo conduzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
O levantamento aponta que, em 2025, o Brasil teve 2.490.145 matrículas no ensino técnico, uma alta de 4% em relação a 2024, quando houve 2.389.454. Entretanto, o Plano Nacional de Educação (PNE) vigente até 31 de dezembro de 2025 definiu a meta de triplicar, em dez anos, as matrículas de educação profissional técnica de nível médio.
Para consolidar e fortalecer o ensino técnico gaúcho, o SINEPE/RS vem buscando firmar o protagonismo da rede privada na elaboração das diretrizes para o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) — também conhecido como Juros por Educação. Criado pelo governo federal, o Propag permite que parte dos juros da dívida dos Estados com a União seja investida em educação profissional técnica de nível médio.
Em fevereiro, a diretoria do SINEPE/RS participou de uma reunião com representantes do governo do Estado e de escolas técnicas para a apresentação e análise de dados da educação profissional, com foco na construção do regramento do Propag. O diretor do sindicato, Carlos Milioli, comenta que a educação profissional está recuperando sua relevância no mercado, tornando-se um fator decisivo para a instalação de novas empresas e investidores em diferentes regiões.
Milioli comenta que, de modo geral, o mercado está carente de profissionais e há muitas vagas de trabalho disponíveis para educação profissional. Hoje, os investidores e as empresas que se instalam no Estado avaliam o potencial de mão de obra das regiões antes de se fixarem. Independentemente do segmento, a percepção é de que essa necessidade é urgente. “O Rio Grande do Sul quer ser um polo turístico importante, nacional e internacionalmente, mas nós temos uma carência enorme de profissionais técnicos em turismo”, comenta.
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O diretor pontua que diversas regiões sofrem com a escassez de profissionais que dominem competências básicas e específicas, como atendimento ao público, vendas e idiomas aplicados. Milioli aponta que também há falta de profissionais em áreas como a saúde, que necessita de técnicos em enfermagem, radiologia, nutrição e análises clínicas.
Na sua visão, o fortalecimento dos serviços de saúde é um dos pilares estratégicos da economia gaúcha, sustentado por uma infraestrutura robusta que inclui o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), o maior complexo hospitalar 100% SUS do Sul do país. Ele frisa que o RS tem se destacado nacionalmente e internacionalmente em áreas complexas, como transplantes, oncologia e tratamento de queimados, o que impulsiona o chamado “turismo de saúde”, que engloba as pessoas que viajam para receber tratamento hospitalar. No entanto, o crescimento desse segmento está limitado pela falta de profissionais técnicos.
O cenário industrial também apresenta lacunas expressivas na formação técnica para novos empreendimentos de grande porte. O diretor comenta que projetos como a segunda fábrica de celulose em Guaíba, a construção de um parque tecnológico aeronáutico e os investimentos em energias renováveis enfrentam a ausência de profissionais de nível médio técnico.
Conforme o diretor, atualmente, as matrículas estão concentradas em apenas cerca de 15 cursos tradicionais, que representam 70% do total, deixando diversas áreas estratégicas desassistidas. Ele atribui a falta de oferta em cursos técnicos “não tradicionais” à insegurança das instituições de ensino em investir sem a garantia de demanda ou turmas formadas.
O professor também comenta que o governo estadual está trabalhando com uma ferramenta que produzirá um “mapa de demandas”, o qual orientará a alocação dos recursos do Propag para definição de quais cursos serão ofertados e em quais localidades, garantindo que o investimento seja assertivo e atenda às necessidades reais do mercado.
“A partir do momento em que houver um mapa de demandas por parte do governo do Estado, e a partir do momento em que houver fomento, financiamento, a procura por esses cursos vai naturalmente ocorrer”, sublinha.
Outro desafio enfrentado pelo ensino técnico gaúcho é a redução do número de professores. Milioli comenta que o Propag financiará exclusivamente cursos presenciais, o que deve atrair profissionais qualificados que hoje estão fora da sala de aula de volta ao setor, atraídos pela nova demanda.
O diretor do SINEPE/RS comenta que novas diretrizes curriculares estão em fase de implementação no Estado, regulamentando o “notório saber”. Isso permitirá que especialistas com vasta experiência de mercado possam auxiliar os docentes nos programas dos cursos, flexibilizando a contratação e ajudando a suprir a carência, especialmente em cidades do interior.
Um dos fatores que inibe o acesso aos cursos técnicos no Brasil é o preconceito histórico, que Milioli atribui principalmente à desinformação. Ele observa que, nos últimos anos, houve uma migração desordenada de estudantes para cursos de bacharelado na modalidade EAD, uma movimentação que gerou uma distorção no mercado: enquanto bacharéis recém-formados em áreas saturadas enfrentam salários iniciais próximos a R$ 1,8 mil, profissionais técnicos qualificados encontram uma demanda tão alta que seus salários iniciais variam entre R$ 2,6 mil e R$ 3 mil, evidenciando a carência de mão de obra especializada.
O professor chama atenção ainda para um movimento de famílias e estudantes que utilizam a educação profissional como uma etapa estratégica para alcançar o ensino superior. Alunos de cursos como Enfermagem, Engenharia, Arquitetura, entre outros, buscam a formação técnica simultaneamente à faculdade para garantir uma inserção rápida no mercado de trabalho e uma fonte de renda que ajude a custear seus estudos. Esse perfil de aluno demonstra que, quando há pesquisa sobre a empregabilidade, o preconceito dá lugar à visão prática de que um profissional com curso técnico ingressará no bacharelado mais preparado, fator que vem sendo valorizado pelo mercado.
Ele acredita que esse preconceito tende a acabar, porque o governo do Estado está mudando radicalmente a oferta de educação profissional, já para o calendário de 2026. Haverá uma grande quantidade de escolas públicas e estaduais oferecendo, no Ensino Médio, uma educação integrada ao Técnico. “O número de profissionais técnicos formados vai ser tão grande daqui a uns anos que, naturalmente, o preconceito deverá diminuir, inclusive porque vamos ver os egressos do Ensino Médio, com 18 ou 19 anos, com boas colocações iniciais no mercado de trabalho, já com uma identidade profissional, com uma profissão definida”, comenta.
O head de educação básica e profissional da Escola Técnica Cristo Redentor (ETCR), Fernando Michel, acrescenta que existe um movimento de retomada da valorização do ensino técnico, combatendo o estigma social de que apenas a graduação garante sucesso ou status.
“Criou-se um mito de que ter uma graduação é ter sucesso, status e trabalho. Mas nós vemos que não é bem assim. Nem todo mundo que tem uma graduação consegue se colocar no mercado de trabalho. Por isso, agora, a formação técnica está recebendo um outro olhar. Tanto que os alunos de graduação estão buscando os cursos técnicos”, sublinha.
Segundo Jéssica Antunes, vice-diretora pedagógica da Escola Técnica Cristo Redentor (ETCR), de Porto Alegre, a demanda por cursos técnicos na instituição é diretamente influenciada pelas oscilações do mercado e por programas governamentais. Ela explica que o curso técnico de edificações, por exemplo, apresenta crescimento quando há incentivos habitacionais como o “Minha Casa, Minha Vida”, assim como a busca por enfermagem teve um pico durante a pandemia.
Atualmente, a instituição conta com 11 cursos e cerca de 600 alunos, oferecendo horários flexíveis nos turnos da manhã, tarde, noite e aos sábados. Segundo os gestores da ETCR, esta última modalidade, implementada há dois anos, tem se mostrado muito bem-sucedida para atender o público que trabalha durante a semana. Eles descrevem o perfil dos estudantes da escola como sendo múltiplo e heterogêneo.
“Temos muitos alunos que já têm uma graduação e vêm fazer um curso técnico para aprender a aplicabilidade do conhecimento porque, às vezes, a graduação trabalha muito a teoria e não a prática. Muitos profissionais que já são graduados vêm fazer técnico em química para aprender sobre a indústria e poder se inserir nesse mercado, que facilmente absorve esses profissionais”, comenta Fernando Michel.
Jéssica acrescenta que também há alunos que desejam mudar de área de atuação, trabalhadores que já atuam no setor, mas precisam de titulação formal, e jovens que conciliam o ensino médio com o técnico. Essa diversidade motivou a criação do Ensino Médio Integrado (EMI) na instituição, permitindo que o aluno conclua ambas as formações simultaneamente.
Os gestores comentam que, historicamente, o ensino técnico gozava de grande prestígio devido à alta empregabilidade e curta duração. No entanto, o setor enfrentou um período de perda de espaço com a expansão das faculdades à distância (EAD), que atraíram o público pelo baixo custo e pela menor exigência de presencialidade, desafiando o modelo técnico tradicional que prioriza a prática presencial.
Para fortalecer a modalidade, o ETCR mantém cursos tradicionais como Nutrição, Farmácia, Segurança do Trabalho e Informática, mas investe em nichos inéditos como o curso de Tradutor e Intérprete de Libras, que foi aprovado recentemente, sendo apenas o segundo no RS a oferecer essa formação. Para o futuro, o ETCR mantém um olhar voltado à inovação, planejando cursos voltados à inteligência artificial e tecnologia.

“A nossa aposta para o futuro é retomar o Ensino Médio integrado ao técnico com grande êxito. Por enquanto, estamos só com uma turma, mas o nosso objetivo é fortalecer a escola como uma marca de ensino médio integrado a cursos técnicos, já que a nossa coluna vertebral é a formação técnica”, conclui Michel.

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