Desafios das IAs no ensino: da autoria à produção textual

Profissionais das Ciências da Linguagem analisam sobre como a tecnologia generativa redefine os conceitos de responsabilidade, escrita e criação nas salas de aula

imagem: Magnific

Os usos das Inteligências Artificiais (IAs) como ferramenta de pesquisa, desenvolvimento tecnológico, suporte à programação e outras vastas aplicações são cada vez mais perceptíveis em diferentes ambientes. Algumas discussões sobre as condições éticas no presente cenário começam a ser pauta recorrente no tratamento dos limites que a tecnologia emergente deve atender.

Uma dessas inquietações diz respeito à autoria no processo de produção de enunciados por meio de IAs generativas. Em que lugar se coloca a tecnologia, enquanto criadora de material, que necessita de uma base que não advém dela mesma para tal “criação”? A IA de fato cria esses enunciados ou somente compila o que os outros já fizeram? Nesse sentido, ela seria “autora”? Qual seria o papel do humano nesse processo? Qual seria o status do texto criado por IA?

Tais perguntas podem não ser tão simples de responder, ou mesmo nem terem uma resposta adequada para o presente sem que haja necessidade de revisão em um futuro próximo. Para que não seja preciso o abandono prematuro de nossas considerações sobre o tema, iniciemos assentando aquilo que consideramos ser fundamental ao debate. Não temos pretensão de orientar, de fechar respostas, mas de suscitar inspirações.

As perguntas acima feitas podem nos fazer, à primeira vista, dada a complexidade do assunto, perder de vista a questão fundamental a ser respondida antes de todas as demais. O centro de nossa discussão parte do seguinte: como se constitui a autoria?

A constituição da autoria 

Antes de tudo, a atribuição de autoria a alguém (ou a algo, nesse caso) perpassa condições históricas que não dispõem de igual atribuição ao longo do tempo e nas diferentes sociedades. A palavra “atribuição” muito nos diz das condições sob as quais a ideia de autoria é construída. Quando pensamos em “atribuição”, consideramos que a autodeclaração de autoria pode não ser o suficiente para o reconhecimento de que determinada fonte de fato é aquela que originou um enunciado. Aquilo que é atribuído precisa necessariamente de aceitação dos pares, reconhecimento desses para que a parte naquilo que se apresenta seja dada ao sujeito.

Os interlocutores são peça indispensável na atribuição da autoria, pois, se essa não é reconhecida, o autor não é reconhecido como tal. Não fosse a existência do outro, qual haveria de ser a necessidade da autodeclaração da autoria? O locutor declara, enuncia aquilo que deseja que seja de sua pertença somente por conta do outro. A alteridade é condição da humanidade, e esta só é possível pela linguagem. É por meio dela que o sujeito se constitui como tal. Se considerarmos as contribuições da Teoria da Enunciação às ciências da linguagem, a própria existência do “eu” e do “tu” precisa ser ponderada dentro de sua dimensão discursiva, assim analisada enquanto instância de discurso.

Na produção de linguagem, o escritor ou o falante produz um texto orientado duplamente: ao outro, seu interlocutor, e ao objeto. O texto não somente traduz um conteúdo a outro, como também mostra um posicionamento axiológico em relação ao objeto, ao tema da enunciação.

Nesta valoração do objeto no enunciado, é impossível ao seu criador esconder-se, fugir de sua responsabilidade enunciativa, ou, conforme nos revela o filósofo russo Mikhail Bakhtin (2017), não há álibi do criador em seu enunciado. Dada a sua singularidade espaço-temporal e histórica, o texto sempre irá revelar uma fonte autoral que o organizou e, além disso, evidencia um posicionamento frente ao mundo. O ser humano constitui-se pelo texto, e esse atende às dinâmicas sociais e históricas que lhe são condição para elaboração do discurso sobre o qual é responsável e responsabilizado, visto que somente aquele falante, naquele contexto, com tais condições, poderia produzir tal objeto singular do discurso que é, por conta de tudo isso, irrepetível.

Sobre nosso agir, possuímos responsabilidade. Não é possível furtar-se dos próprios atos, pois, enquanto sujeitos sociais circunscritos em nossa própria história, não existe outro que possa tornar intercambiável a existência do ser ou mesmo do agir. A ação possui efeito real dentro do contexto no qual se está inserido. Considerando isso, tomamos ciência de que o falante não comunica aquilo sobre o qual seria ele isento de avaliação dos pares. Não existe possibilidade de enunciado concreto que não seja passível de valoração. Aquele que enuncia estabelece relação dialógica indissociável do projeto do dizer transformado em enunciado, condição natural da linguagem: discurso é dialógico por natureza (Bakhtin, 2016). Quando discursa, o sujeito alinha-se, aproxima-se a discursos, da mesma forma, afasta-se de outros, jamais rompendo o elo na cadeia dos discursos que lhe são condição à existência e desse como condição à existência de outros que surgirão. Tudo isso é próprio do acontecimento da linguagem. É por meio dessa que nos fazemos percebidos, que nos fazemos ouvidos, lidos, constituídos.

Somos seres de linguagem por essência. Sem dúvida, temos um nascimento fisiológico que nos individualiza, mas o nascimento à sociedade se dá quando adentramos o mundo da linguagem: recebemos um nome e um texto que atesta nossa existência. Logo, desde o nascimento, estamos ligados à linguagem. É assim que nosso contato com o externo, e mesmo com o outro, sempre se dá mediado pela linguagem materializada sob a forma de textos. Quando produzimos linguagem real, produzimos textos, somos autores de textos, e com isso voltamos ao nosso tema. Não temos um consenso do que é autoria nas teorias da linguagem, portanto lidamos com conceitos de autoria. Nossa perspectiva, no entanto, está alinhada à explicação dos conceitos no movimento real do mundo.

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Autoria em perspectiva histórica

A ideia de autoria, em momentos pregressos ao advento das IAs, perpassou um percurso sinuoso, com o conceito sendo mobilizado de formas distintas. No contexto da Grécia antiga, obras consagradas da literatura universal atribuídas a Homero, a Ilíada e Odisseia, possuem discussão sobre a existência de um autor uno. A possibilidade de elaboração de obras tal qual se constituem demandaria a criação de material literário, esforços que poderiam não ser possíveis a apenas uma pessoa. No entanto, mesmo em tempos atuais, ainda que saibamos da possibilidade de o trabalho da obra ser proveniente de várias mãos, ainda assim reconhecemos a obra ser de Homero.

Em tempos posteriores, em Roma antiga, por exemplo, a imitação (imitatio) de obras consagradas na cultura encontrava aprovação e prossecução nos diversos ambientes em que a literatura se fazia presente. Os grandes autores de Roma foram não só influenciados, como também possuíam parte de tamanha reverência que encontraram por fazerem interpretações e imitações de obras gregas de grande prestígio à época (Citroni et al., 2006). Não há hoje, entre os afeitos à literatura clássica, quem não reconheça a grandeza de Vergílio, de Catulo, de Fedro, ou mesmo de Ovídio, cuja importância reverbera até nossos tempos, influenciando o surgimento de tantas outras obras.

A forma como os romanos compreendiam a propriedade intelectual, embora tenham encontrado em Marcial certo tratamento que poderia antecipar o que entendemos hoje como aquilo que pertence ao autor, e que por isso deve ser resguardada de alguma forma, ainda tratava de forma abstrata os limites dessa atribuição. Ao analisarmos os aspectos sociais envolvidos no cenário exposto, é possível dizer que parte do valor que se dava ao autor da obra era, sim, o de prestígio pelo feito da autoria daquele de quem advinha o texto, mesmo considerando as fortes influências e eventualmente a clara imitação que qualquer obra poderia fazer a outras. 

A complexidade da autoria

Logo, reivindicar propriedade intelectual faz sentido por conta da dinâmica social de produção do ato de enunciar a pertença de tal propriedade. Além desse valor, havia também questões financeiras sob as quais se envolvia a produção. Não era raro acontecer de textos serem escritos sob a encomenda de terceiros para diversas finalidades, como os poemas laudativos, os quais tinham como propósito a exaltação da figura de uma pessoa que morresse e tivesse familiares com recursos financeiros para que lhe fosse prestado momento digno de memória por meio de versos poéticos. Esse contexto peculiar de elaboração dos textos é o que torna igualmente particular os limites do entendimento do que era pertencente a um autor e não a todos os demais, ou a quem quer que desejasse reivindicar autoria de material elaborado por outrem.

Dos Tempos Clássicos à contemporaneidade, seguimos discutindo a complexidade da autoria, que recai sobre a concretude textual, o produto acabado. Porém, diferente do ambiente em que se originou a discussão acerca da identidade autoral, num tempo em que quase tudo é obtido em segundos via internet, despertar o prazer pelo processo de criação é um desafio. 

Concretamente, um estudante pode gerar uma redação em menos de 30 segundos por um comando dado à IA. Sem instrução explícita prévia, pode, quando muito, dar uma passada de olhos no texto antes de entregar ao professor; ou, confiando na tecnologia, envia diretamente, certo de que seus comandos foram obedecidos pela máquina. Porém, a partir do que expusemos acima, a quem pertence a autoria do texto? Ou, que texto foi esse, criado pela IA?

Desafios do ensino atual

As relações dialógicas e a responsividade são condições fundamentais para a construção do discurso. Quando produzimos enunciados, produzimos relações, criamos elo na cadeia dos discursos. O uso irrestrito das ferramentas de IA generativa no plano do enunciado encerra qualquer possibilidade de construção de saber que o exercício poderia causar. Isso visto que à IA fica encarregada a missão de reunir os textos cuja autoria é de outros e agrupá-los de modo que o solicitante, escritor do prompt, não consiga sequer perceber os limites que circunscrevem o que um ou outro diz. O processo resultante da criação de novos sentidos pela tarefa de agrupar conhecimentos é esvaziado.

Questionamos se o estudante se implica no texto criado por IA, já que não fez parte do processo (ou muito pouco, sendo apenas o que define o prompt). A criação textual, principalmente a escrita, envolve uma série de atitudes concernentes ao próprio ato, como a orientação ao interlocutor, a escolha lexical adequada, o tom da escrita, a referência a outros textos. 

Sem dúvidas, a IA pode dar conta de tudo isso com um prompt bem feito, mas ainda assim o texto ao solicitante carecerá não somente de autoria, mas também será esvaziado. Sem o exercício dialógico de sua parte, condição à construção do saber, não há igualmente construção do conhecimento. A máquina produz, mas faltou o elemento humano que ressignifica. O texto criado artificialmente é um artefato linguístico, sem dúvidas, em termos de regras gramaticais, retóricas, de gênero discursivo, de finalidade. É uma estrutura significante. 

A ausência de um sujeito que mobilize os discursos de modo a criar um enunciado com sentido que lhe seja próprio é o que torna o autor ausente (embora, pela heterogeneidade do discurso, tantos outros indetectáveis ali habitem). Como diz-nos Roland Barthes, “[…] joga-se com um objeto excepcional, cujo paradoxo foi bem sublinhado pela linguística: imutavelmente estruturado e, no entanto, infinitamente renovável: algo como o jogo de xadrez.” (Barthes, 1987, p. 85), no qual os jogadores usam as mesmas peças, no mesmo tabuleiro, mas em praticamente infinitas combinações. Ora, a IA também “joga” o xadrez. Mas onde está a marca singular do jogador, seu estilo? No texto escrito, o humano é inseparável de uma vivência social, pois escreve a partir de leituras prévias, a partir do que experienciou enquanto sujeito. Sua escrita será uma resposta a tudo isso. Mesmo a IA necessita das relações dialógicas e da responsividade dos sujeitos para compor o enunciado que provém de sua base de dados. 

O escritor é aquele que dá acabamento estético à sua experiência concretizada em um texto único, singular, que somente aquele autor poderia escrever, pois é resultado de vivências axiológicas também únicas e singulares. Este texto, portanto, tem um respaldo de vida.

A ordem executada do prompt evidencia processo de despersonalização, pois o sujeito se torna ausente, e os demais sujeitos, reais autores dos textos amalgamados provenientes da base de dados, tornam-se indetectáveis. O processo da escrita não é linear. O autor, em busca de aperfeiçoamento, exclui passagens, troca uma palavra, altera a ordem de parágrafos, adiciona trechos. 

O processo da escrita 

A arte de escrever e reescrever acaba por formar um corpo de texto marcado pela mão do seu autor. São ações que, embora inexistentes no texto final, acabam evidenciando a autoria do texto, aquela voz que decide. Esse processo é apagado na ordem dada à IA, visto que essa, dada a ausência de personalidade, ou melhor, a terceirização de responsabilidade, exime-se do não-álibi (diz-se “é só a máquina”, “é a IA”), ignorando o fato de que ela mesma também possui somente como dados ativos e gerativos aqueles que são permitidos por humanos.

A IA é uma realidade inquestionável e incontornável. O perigo (se é que, para além dos apresentados, ele existe) está em o ser humano passar a ela a responsabilidade criativa, ou mesmo ética. Ao deixar de contemplar o salutar exercício da escrita, que por si só demanda uma leitura de mundo, a apreensão dos discursos precedentes, das relações dialógicas e responsabilidade condicionais ao enunciado, o sujeito deixa de acessar um código de comunicação fundamental à sua constituição enquanto sujeito de linguagem. 

A ausência desse conhecimento de escrita dificulta possibilidades de ocupação de espaços que deveriam ser ocupados pelo estudante. É necessário avaliar quais são os efeitos do uso impensado da IA e demais ferramentas que possam surgir, para que possam ser aproveitados como recursos aliados à educação.

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