O verdadeiro desafio da transformação digital na educação
Neste artigo, Carlos Coelho destaca que programas 1:1 podem contribuir para aumentar o comprometimento dos estudantes
Durante muito tempo, a discussão sobre inovação na educação esteve centrada na tecnologia. A chegada dos computadores, tablets, plataformas digitais e, mais recentemente, da inteligência artificial, trouxe novas possibilidades para o ensino e a aprendizagem. No entanto, um dos principais desafios das escolas atualmente não está relacionado ao acesso à tecnologia. O desafio está no engajamento.
Pesquisas realizadas em diferentes países apontam uma tendência preocupante: ao longo da trajetória escolar, os estudantes tendem a se sentir menos conectados com a experiência de aprendizagem. Esse fenômeno tem sido observado globalmente e se tornou ainda mais evidente após a pandemia.
Diante desse cenário, cresce o interesse por compreender quais condições realmente favorecem o comprometimento dos alunos e quais estratégias podem contribuir para tornar a aprendizagem mais significativa. É nesse contexto que os programas educacionais 1:1 ganham relevância.
Mais do que disponibilizar um equipamento para cada estudante, o modelo 1:1 busca criar condições para que a tecnologia esteja integrada ao cotidiano pedagógico de forma contínua, o que favorece experiências de aprendizagem mais personalizadas, colaborativas e criativas. Mas será que esse modelo realmente gera impacto?
Um dos estudos mais abrangentes sobre o tema foi publicado em 2025 pelos pesquisadores Damien Bebell e Justin Burt. Intitulado “Engaged Teaching, Engaged Learning“, o estudo reuniu informações de 17.078 professores de 323 Apple Distinguished Schools distribuídas em 31 países. As Apple Distinguished Schools são instituições reconhecidas internacionalmente pela empresa por utilizar de forma estratégica os dispositivos, aplicativos e recursos do ecossistema Apple para impulsionar a inovação e a transformação da aprendizagem.
Os resultados ajudaram a compreender melhor o papel da tecnologia na aprendizagem. Segundo a pesquisa, os professores relataram que os estudantes permanecem ativamente engajados, em média, durante 78% do tempo de aula. Mais importante do que esse indicador, porém, foi a identificação das práticas pedagógicas mais associadas ao engajamento. Os alunos trabalhavam, em média, de forma colaborativa em 57% do tempo de aula, e essa prática demonstrou uma das correlações mais significativas entre todas as variáveis analisadas.
Outro dado relevante mostra que o engajamento aumenta quando os estudantes utilizam a tecnologia para criar conteúdo e desenvolver projetos. Produzir vídeos, apresentações, materiais multimídia e soluções digitais demonstrou uma relação muito mais forte com o engajamento do que atividades mais passivas, como apenas consumir conteúdo ou realizar anotações digitais.
Essas descobertas ajudam a esclarecer uma questão importante. O impacto dos programas 1:1 não está no dispositivo em si. Está na possibilidade de transformar o papel do estudante dentro da sala de aula. Quando a tecnologia é utilizada apenas para substituir ferramentas tradicionais, seus benefícios tendem a ser limitados. Mas, quando ela permite que os alunos investiguem, criem, colaborem e resolvam problemas, surgem oportunidades para experiências de aprendizagem mais profundas e relevantes.
Essa conclusão também aparece em outro importante estudo internacional. Em 2023, a consultoria Forrester Research publicou o relatório The Total Economic Impact™ of Apple in K–12 Education, analisando instituições de ensino que adotaram programas educacionais com tecnologia Apple. Além dos ganhos acadêmicos observados, a pesquisa identificou benefícios relacionados à eficiência operacional, à redução de tempo gasto em tarefas administrativas e ao fortalecimento da experiência de aprendizagem para professores e estudantes.
Os dois estudos chegam a uma conclusão semelhante: projetos de tecnologia educacional geram melhores resultados quando fazem parte de uma estratégia institucional mais ampla. Isso significa olhar para aspectos que vão muito além da escolha do equipamento. Formação continuada dos professores, gestão da mudança, suporte tecnológico, segurança dos dispositivos e alinhamento com os objetivos pedagógicos da escola são fatores que influenciam diretamente o sucesso de qualquer iniciativa de transformação digital.
Talvez por isso as experiências mais bem-sucedidas observadas internacionalmente não sejam aquelas que investiram apenas em tecnologia, mas as que construíram uma cultura de inovação capaz de conectar pessoas, metodologia e recursos digitais em torno de um propósito comum.
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Nesse processo, os espaços de aprendizagem também passam por transformações. Salas de aula, laboratórios, bibliotecas e ambientes colaborativos deixam de ser locais voltados apenas para a transmissão de conhecimento e tornam-se ambientes de criação, investigação e protagonismo estudantil. Essa mudança de perspectiva é particularmente relevante para gestores educacionais que buscam preparar suas instituições para os desafios da próxima década.
Mais do que apresentar soluções, o modelo 1:1 pode criar oportunidades de troca e de observação de práticas em funcionamento – desde a formação docente e a infraestrutura tecnológica até a construção de uma cultura de inovação alinhada aos objetivos pedagógicos de cada escola. Para quem busca iniciar ou amadurecer esse caminho, ter acesso a referências reais, vivenciadas por outras instituições, tende a ser tão valioso quanto qualquer estudo ou relatório.
A experiência acumulada em projetos de transformação digital reforça aquilo que as pesquisas já demonstram: a tecnologia, por si só, não transforma a educação. No entanto, quando associada a uma proposta pedagógica consistente, à formação contínua dos educadores, à liderança institucional e à intencionalidade no seu uso, ela se torna uma poderosa aliada para ampliar o engajamento, desenvolver competências essenciais e tornar a aprendizagem mais significativa.
O verdadeiro desafio não está em adotar ferramentas, mas em construir experiências. Aquelas que preparem os estudantes para um mundo em constante transformação, mantendo o foco naquilo que a educação tem de mais humano: a capacidade de inspirar, conectar e transformar vidas.
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