“Mulher das Estrelas” defende a educação e a presença feminina na ciência
Colaboradora da Nasa, a astrônoma Duilia de Mello aborda a importância das missões espaciais para o despertar científico dos estudantes
Em abril deste ano, o mundo voltou sua atenção para a missão Artemis II. Nela, quatro astronautas fizeram a primeira viagem tripulada a orbitar a Lua desde a Apollo 17, em 1972. Durante dez dias, os astronautas Reid Wiseman, Christina Koch, Victor Glover e Jeremy Hansen colocaram em prova a espaçonave Orion, marcando um passo importante para o retorno humano à superfície lunar.
A repercussão do evento trouxe um novo fôlego para uma geração que não vivenciou o auge das missões espaciais das décadas de 1960 e 1970. Hoje, o salto tecnológico e a hiperconectividade estimulam o debate sobre a popularização da ciência e a percepção da astronomia como uma carreira viável.
“Eventos como a Artemis II são poderosos porque criam imagens simbólicas”, aponta a astrônoma e astrofísica extragaláctica brasileira Duilia de Mello, atual professora titular e vice-reitora de estratégias globais da Universidade Católica da América, em Washington DC.
Colaboradora da Nasa, Duilia é conhecida como “A Mulher das Estrelas” por ter descoberto a Supernova 1997D – um evento raro que desafiou o conhecimento da época sobre a morte das estrelas. Atualmente, a pesquisadora dedica parte de sua trajetória para democratizar o conhecimento científico, defendendo especialmente que meninas ocupem espaços nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Em entrevista para o Educação em Pauta, a pesquisadora fala sobre como transformar a ciência em uma narrativa atraente para os jovens, a importância de criar modelos femininos no topo da carreira científica e o papel das escolas em transformar o entusiasmo das missões espaciais em conteúdo prático dentro da sala de aula.
Em que momento da sua carreira você percebeu que popularizar a ciência era tão vital quanto a sua própria pesquisa em laboratório?
Eu diria que isso não aconteceu de uma vez só, mas foi um processo. Houve um momento muito marcante: quando comecei a dar palestras para o público e percebi o impacto imediato que aquilo tinha. No laboratório, o impacto da pesquisa é profundo, mas muitas vezes demora anos para se traduzir em algo mais amplo. Já quando você conversa com um estudante, você vê a transformação ali, na sua frente. Foi aí que entendi que fazer ciência e comunicar ciência não são caminhos paralelos; são complementares. Se a sociedade não entende o valor da ciência, ela não a sustenta. E, sem sustentação, não há pesquisa.
Nesse sentido de transformar a divulgação em ação prática, você lidera o projeto “A Mulher das Estrelas”. Em que fase ele se encontra hoje, quais são os próximos passos e quais barreiras você ainda nota para a permanência de mulheres na ciência?
“A Mulher das Estrelas” nasceu como uma iniciativa de inspiração e hoje está em uma fase de consolidação. Ao longo dos anos, venho levando o projeto a diferentes públicos, como escolas, empresas e comunidades, e ele foi ganhando forma de maneira muito orgânica.
Uma parte importante desse trabalho também se materializa nos meus livros. Publiquei “Vivendo com as Estrelas”, voltado especialmente para jovens, e acabei de concluir um novo livro, mais pessoal, em que conto a minha trajetória na ciência. Quando ele for publicado, será, de certa forma, a versão mais atual do “Mulher das Estrelas”, reunindo não só a inspiração, mas também os bastidores, os desafios e as escolhas ao longo da minha carreira. Neste momento, meu foco é estruturar melhor essa atuação, criando materiais mais permanentes e ampliando seu impacto de forma consistente.
Quanto às barreiras, elas ainda existem e são muitas. A principal não é a entrada das mulheres na ciência, mas a permanência. Falta de modelos, ambientes pouco acolhedores e, em alguns casos, uma cultura que ainda questiona a presença feminina. E aqui há um ponto fundamental: precisamos trazer os homens para essa conversa. Sem eles, não haverá mudança real. A transformação precisa ser coletiva, envolvendo toda a comunidade acadêmica e profissional.

Como as escolas podem usar o marco da primeira mulher na órbita da Lua, com a Artemis II, para mostrar às meninas que o topo da carreira científica é um lugar para elas?
Eventos como a Artemis II são poderosos porque criam imagens simbólicas. Ver uma mulher indo à Lua não é só um feito tecnológico, é uma mensagem. As escolas podem usar isso para mostrar que não existe “lugar proibido”. Mas é importante ir além da inspiração: mostrar o caminho. Quem são essas mulheres? Que cursos fizeram? Quais habilidades desenvolveram? Tornar o sonho concreto é essencial.
Como o professor pode transformar o entusiasmo passageiro com as missões da Nasa em conteúdo prático do currículo escolar?
O professor pode usar missões espaciais como ponto de partida para várias disciplinas. Por exemplo: calcular trajetórias envolve matemática; estudar os materiais das espaçonaves envolve química e física; discutir as missões envolve geografia e até política internacional. O segredo é conectar o conteúdo do currículo com algo que já desperte curiosidade. O entusiasmo é a porta de entrada, o aprendizado vem depois.
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Qual é a melhor estratégia para a escola ensinar o aluno a consumir ciência com o mesmo interesse que ele dedica ao entretenimento digital?
A ciência precisa ser apresentada como narrativa. O entretenimento prende porque conta história, e a ciência está cheia delas: descobertas, erros, desafios, personagens incríveis. Além disso, é importante usar as mesmas plataformas e linguagens que os jovens já consomem. Não é competir com o digital, mas sim ocupar esse espaço com conteúdo de qualidade.
Como usar a “ciência do espaço” para ensinar outras disciplinas, como história e redação, atraindo quem tem receio da matemática e da física?
O espaço é um tema extremamente interdisciplinar. Podemos ensinar história falando da corrida espacial durante a Guerra Fria, redação pedindo que os alunos escrevam diários de astronautas, filosofia discutindo nosso lugar no universo. Isso ajuda especialmente quem tem receio de Matemática ou Física, porque mostra que a ciência não é isolada. A ciência conversa com tudo.

Como desmistificar a astronomia para que o estudante brasileiro a veja como uma carreira possível?
Primeiro, mostrando que cientistas são pessoas reais, com trajetórias diversas e muitas vezes cheias de desafios. Depois, explicando os caminhos, como quais cursos fazer, onde estudar e quais áreas existem dentro da astronomia. E, principalmente, levando a ciência para mais perto, seja com telescópios em escolas, visitas a observatórios e planetários ou encontros com cientistas. Quando o estudante vê de perto, deixa de parecer distante e passa a ser possível.
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