No Dia do Professor, jovens docentes falam de sonhos e inspirações
Como novos educadores enfrentam o apagão na Educação Básica e projetam novos voos na carreira dentro da área do ensino
A carência de professores preocupa os gestores do ensino privado e da rede pública, mas há casos que renovam a esperança. A desafiadora carreira docente, especialmente na Educação Básica, atrai jovens movidos pelo amor ao conhecimento, pela paixão por ensinar e pelo desejo de aprender continuamente. Essa é uma reflexão oportuna para o Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro.
Eduardo Bauermann Fonteles, 23 anos, estudou a vida toda no Colégio Santa Inês, de Porto Alegre. Ele não foi o primeiro da família: seu avô foi aluno da instituição na sua primeira turma e depois matriculou os filhos, que fizeram o mesmo anos mais tarde. Em 2020, no último ano do Ensino Médio – e em meio à pandemia –, ele começou a dar aula de reforço em Biologia para os colegas que, às vésperas do vestibular, sentiam necessidade de suplementar os estudos.
O grupo ganhou forma e Fonteles ficou muito à vontade para passar as lições. “Ali eu percebi que todo mundo já pensava que eu seria professor, menos eu. Semanas antes da inscrição para o ENEM, entendi que queria me tornar professor”, lembra. A opção foi pelo curso de licenciatura em Ciências Biológicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Três anos depois de sair da escola, em 2023, retornou como estagiário. Cumpridos os dois anos permitidos, foi contratado como educador assistente. Concluída a graduação, no fim de 2025, tornou-se oficialmente professor. Hoje, leciona para o 3º ano do Ensino Médio e no Clube de Ciências, atividade extraclasse para estudantes do 8º e do 9º anos do Ensino Fundamental.


Fonteles tomou gosto pela educação logo cedo e cursou toda a educação básica no Colégio Santa Inês, para onde retornou como professor de Biologia | Crédito: Acervo pessoal e Colégio Santa Inês, divulgação
Entre os contemporâneos de Ensino Médio, recorda-se de uma colega que se formou em Pedagogia e de um outro que começou o curso de Matemática, mas Fonteles não sabe se foi concluído. A baixa procura não é novidade para ele. “São dados: vamos sofrer com o apagão de professores. Os jovens ainda valorizam a profissão, com um discurso muito bacana, mas que termina com ‘não é para mim’. Até na graduação vi colegas que, cursando licenciatura, diziam que não queriam dar aula no momento”, conta. Segundo ele, o objetivo desses colegas era dar continuidade na área de pesquisa e, posteriormente, dar aula no Ensino Superior.
De fato, são dados. Nos últimos dez anos, o número de professores de Ensino Médio na rede pública com até 24 anos caiu 31%, segundo a pesquisa “Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil”, promovida pelo Instituto Semesp. No mesmo recorte histórico, entre 2015 e 2025, os docentes com 60 anos ou mais cresceram 104,5%.
No Rio Grande do Sul, os números são ainda piores. A queda de professores de Ensino Médio abaixo dos 24 anos caiu 42,6% (de 638 para 366), enquanto os docentes de 60 anos ou mais saltaram de 1,2 mil para 2,2 mil, o que representa um acréscimo de 73,3%.
O instituto aponta que essa tendência de envelhecimento do quadro de professores contribui substancialmente para o chamado apagão, previsto para 2040 – mas que já é sentido em muitas escolas. A estimativa é que, em 14 anos, haja um professor de até 24 anos para cada seis com 60 ou mais. Até lá, o déficit de professores na Educação Básica pode chegar a 235 mil.
O que preocupa os gestores acaba se tornando uma oportunidade de mercado para quem está definindo o futuro. Fonteles contou com o apoio da família, até porque eles já tinham percebido sua vocação. Agora, como professor, percebe que diversos alunos têm se interessado pela docência. “Talvez seja um caso particular deste ano, mas já me vêm três na cabeça que querem seguir a licenciatura. É uma profissão bonita, mas muito difícil”, reflete.
Profissões difíceis, mas bonitas, costumam encantar as crianças. Tempos depois, algumas se assustam com as agruras, outras só fazem se apaixonar ainda mais. O segundo caminho foi o destino de Milena Martins Longaray Garcia, que não brincava apenas de boneca: ela criava uma sala de aula e se encarregava de passar as lições para os bichinhos de pelúcia. Hoje, com 26 anos, ela é professora de Português no Colégio Stella Maris, de Viamão, onde estudou desde o 1º ano do Ensino Fundamental.
“Durante a adolescência, fui entendendo em quais áreas eu me dava melhor e onde eu via que aquilo poderia ser uma profissão. No início, já tinha alguma noção do piso salarial, sabia que não era atrativo, mas tudo na vida foi me levando para esse caminho”, conta. Para começar a carreira, escolheu cursar licenciatura em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), por entender que a instituição ofereceria uma formação mais focada na docência do que na pesquisa acadêmica.


Quando criança, Milena enfileirava os bichos de pelúcia para brincar de exercer a profissão que viria a exercer anos mais tarde | Crédito: Acervo pessoal
Alguns colegas de escola também optaram pela carreira de professor, mas as turmas em que leciona agora não têm mostrado o mesmo anseio. No caso de Milena, ela concluiu o Ensino Médio em 2017 e voltou para a instituição quatro anos depois, como estagiária, já no terceiro ano da graduação. Desta vez, era ela quem estava em meio à pandemia, e acompanhar o trabalho dos professores foi uma jornada enriquecedora. “Era preciso atuar em dois formatos: online e presencial. Eu atuava dentro da aula, fazendo observações, e também oferecia uma oficina de redação no turno inverso”, lembra.
Depois de um período dividindo a atenção entre as redes pública e privada, o vínculo com o Estado tornou inviável conciliar, pois exigia dedicação de 40 horas. “Iniciei mestrado para me qualificar e, mesmo assim, não aceitaram reduzir a carga horária. Em vez de investir em mim para que pudesse retornar mais tarde com as 40 horas, optaram por me perder”, analisa. As 25 horas que cumpria no colégio da vida inteira falaram mais alto. Hoje, Milena dá aula de Português para o 6º e o 7º anos do Ensino Fundamental e a primeira série do Ensino Médio.
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Para Milena, ser professora é fazer um papel muito importante para a sociedade. “Estamos ali para formar todas as outras profissões. Infelizmente, preciso falar que, em grande parte, é feita por amor. Digo isso vindo também daquela criança que gostava de brincar de ser professora e hoje pode cumprir esse papel por amor, mas deseja que a profissão seja mais valorizada. Embora vejamos em muitos alunos esse carinho, essa gratidão, retribuição a tudo que a gente pode prestar de serviço para eles, ainda encontramos muitos desafios”, observa.
Dar os primeiros passos nunca é fácil, mas, quando se tem o apoio dos colegas, fica menos complicado – principalmente quando eles foram seus professores pouco tempo antes. Milena e Fonteles experimentaram essa sensação. No começo, sem muito traquejo para lidar com questões pedagógicas e comportamentais, contar com a tutela dos mais experientes ajudou bastante.
“Ter feito o colégio inteiro no Santa Inês e agora ter os professores como colegas é muito bacana. Sempre temos a figura de professores de quem queremos ser um pouco como eles. Como professor em formação, ao longo da graduação, tu vais construindo e criando identidade, que é um amálgama de vários professores que te inspiram e de referências de leitura“, entende Fonteles.
Milena recorda que foi interessante observar que, ao começar como professora, os colegas auxiliaram no que define como “construção do ser docente”. “Foram pessoas essenciais, com as orientações certas. Tem muita gente que é traumatizada pela carreira e acaba desmanchando esse ideal de educação que tu tens na cabeça”, aponta.
O comentário vem porque ela foi orientada por uma pessoa a “não mostrar os dentes” diante da primeira turma que iria encarar. A postura seria incondizente com sua própria essência. Depois de ouvir outras referências e dicas, entrou na sala de aula com o sorriso que está habituada a oferecer a todos com quem convive. Resumo da história: foi uma das turmas em que mais gostou de trabalhar.
Fonteles garante que não vai parar de estudar. Primeiro, porque gosta. Depois, porque entende que o professor precisa estar sempre se constituindo professor de novo, um processo que nunca acaba. A motivação também se explica pelo entendimento que tem sobre o futuro da profissão.
“Não vivemos tempos fáceis na educação, momento de violência contra professores, especialmente professoras, em todos os níveis de ensino. A classe vem sofrendo muito com repressões, cortes de verbas, mas quem é professor tem muita esperança. Como diz Paulo Freire, esperança do verbo esperançar, e não de sentar e esperar”, afirma.
E ele não para mesmo de estudar. Agora, cursa mestrado em Educação em Ciência, na UFRGS. Antes, pensou em todas as demais áreas da Biologia, de tão apaixonado pela área. Ainda que tenha navegado pela pesquisa, a necessidade de estar na sala de aula sempre bateu mais forte em seu peito. O que pode mudar, daqui a alguns anos, é o nível de ensino, já que ele pretende entrar em um doutorado e, por mais apaixonado que seja pela Educação Básica, em que garante ter se encontrado, não descarta trabalhar em uma universidade um dia.
Milena também olha com esperança para o futuro. Ela já entendeu que os desafios são imensos e destaca a escassez de tempo para lidar com todas as demandas como um dos principais. “A maioria dos professores se cobra demais para fazer um trabalho revolucionário, perfeito. Lutamos por isso, para que seja transformador, mas essa questão do tempo é difícil”, frisa.
As demandas burocráticas, como planejamentos justificados com habilidades e competências que serão desenvolvidas, tomam um tempo precioso dos profissionais. A professora entende que a tecnologia ainda precisa avançar nesse campo para facilitar o processo e deixar mais tempo para estudar e preparar aulas. Por fim, cita a dificuldade encontrada, muitas vezes, para alinhar os objetivos, as diretrizes e os entendimentos da escola com os da família. “Com toda essa perda e a expectativa de não preencher todos os vazios da educação, talvez sejamos valorizados e haja mais investimento nas universidades e na formação de docentes”, projeta.
Assim como Fonteles, ela também projeta um futuro no Ensino Superior. “Já entendi que não conseguiria lidar com um sexto ano aos 60 anos. Chega uma hora em que devemos alcançar novos voos. Meu mestrado não é para alcançar a carreira acadêmica nos próximos anos, mas para estar atualizada. Não aceito estar nos meus 26 anos e não investir nisso, com toda a energia que eu tenho”, garante.
É com essa energia que ela desenvolve projetos como o do livro “Vozes que o oceano não levou”, produzido por estudantes do 7º ano do Colégio Stella Maris. A publicação traz poesias antirracistas e será lançada no dia 7 de novembro de 2026. O evento ocorre no Território dos Parceiros, no 3º andar do Clube do Comércio, durante a Feira do Livro de Porto Alegre.
Inspirados por professores que foram marcantes em suas jornadas, chegou a vez de Milena e Fonteles serem a fonte de inspiração – ela conta, inclusive, que já encontra ex-alunos seus, da escola, estudando no programa de pós-graduação da UFRGS para um dia também entrarem em uma sala de aula como docentes.
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