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18/09/2026

200 anos da educação no Rio Grande do Sul: das escolas comunitárias ao ensino privado

Historiador Martin Norberto Dreher resgata a trajetória da educação no Estado e antecipa pontos de sua palestra no Seminário de Gestores do SINEPE/RS no dia 24/09

por Bianca Zasso - Padrinho Conteúdo
200 anos da educação no Rio Grande do Sul: das escolas comunitárias ao ensino privado

A história do ensino privado no Rio Grande do Sul confunde-se com a própria organização social do Estado no século 19. Diante da ausência de estrutura estatal nas primeiras colônias de imigrantes da Europa Central, o desejo de garantir educação às futuras gerações fez surgir uma iniciativa pioneira: as escolas comunitárias. Criadas de forma precária e mantidas pelo esforço coletivo das famílias, essas instituições se multiplicaram em escolas paroquiais e, após resistirem às pressões e restrições da Era Vargas, consolidaram-se como a semente da rede de ensino privado gaúcha.

Para resgatar essa trajetória e refletir sobre as lições que esse período traz para a gestão contemporânea, o SINEPE/RS traz, entre os convidados do Seminário de Gestores, o historiador e teólogo Martin Norberto Dreher. O encontro será realizado no dia 24 de setembro, no Instituto Rio Branco, em São Leopoldo, instituição que celebra 200 anos de fundação. As inscrições para o evento ainda estão abertas, clique aqui e garanta sua vaga.

Graduado em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST) e doutor pela Universidade de Munique, na Alemanha, Dreher possui uma trajetória marcada pela pesquisa histórica e pelo ensino universitário. Atuou como pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e foi professor de História Eclesiástica na EST, além de lecionar na Graduação e Pós-Graduação em História da UNISINOS.

Na palestra Duzentos anos de uma caminhada: da escola comunitária ao ensino privado no Rio Grande do Sul”, o pesquisador vai apresentar um panorama de como o espírito cooperativo das comunidades do século 19 construiu um modelo educacional de referência. Na entrevista a seguir, o especialista compartilha fatos históricos, curiosidades sobre os primeiros anos das salas de aula no interior e analisa o legado desse modelo para o futuro das instituições de ensino.

Quando os imigrantes chegaram ao Rio Grande do Sul, há dois séculos, o Estado não oferecia estrutura pública de ensino. Há relatos de que as primeiras escolas funcionavam em galpões improvisados e que os próprios colonos pagavam o salário do professor com alimentos e abrigo. Quais eram os principais desafios pedagógicos e estruturais daquela época?

O Brasil, independente desde 1822, não tinha condições de oferecer ensino formal para as populações rio-grandenses. Os imigrantes vindos da Europa Central viviam de tradição que remonta ao século 16, segundo a qual meninos e meninas devem frequentar a escola até o 14º ano de vida. Como não existiam escolas no Rio Grande do Sul, eles próprios tomaram a iniciativa, contratando pessoas capazes em seu próprio meio. Inicialmente, as aulas eram dadas nas casas de colonos em troca de comida e alojamento, surgindo um "professorado itinerante". Nas penetrações feitas na floresta subtropical, designadas de picadas, logo surgiu um prédio comunitário que, durante a semana, funcionava como escola e, aos domingos, como capela. Tanto para a escola quanto para a capela, era eleita diretoria, à qual cabia contratar professor, estabelecer currículo, examinar o professor e alunos. O currículo estabelecia escrever, ler, contar e cantar e se orientava nas necessidades da comunidade. Havia falta quase absoluta de material didático.

Existe uma dúvida muito comum: estamos celebrando 200 anos de escola no Estado ou 200 anos do ensino privado/comunitário? Como essa iniciativa pioneira das famílias de erguerem suas próprias salas de aula moldou a educação gaúcha e a transformou no que hoje chamamos de rede privada?

Penso que estamos celebrando as duas coisas. É impossível separá-las. O ensino comunitário foi privado e o ensino privado foi comunitário. Foi iniciativa da comunidade das picadas ou de imigrantes reunidos nos poucos centros urbanos então existentes. Com a chegada de lideranças religiosas, foram se transformando e passando a ser escolas paroquiais ou passando a fazer parte de redes de escolas confessionais.

 Sua palestra menciona que essas instituições passaram pelo 'turbilhão da Era Vargas'. De que maneira a proibição de línguas estrangeiras e o fechamento de centenas de escolas comunitárias ameaçaram apagar essa história, e como elas conseguiram se reinventar em português para não desaparecerem?

O mérito das escolas comunitárias foi que iniciava o processo do ensino formal com a língua falada pelas crianças e seus pais no ambiente doméstico, passando rapidamente para o aprendizado da língua estabelecida como oficial desde meados do século 18. Isso é atestado pela profusão de material didático elaborado pelas escolas comunitárias. Ao assumir os destinos do Brasil em 1930, Vargas e seus comandados se depararam com um país de imigrantes, sem história comum. Por isso, elegeram o português como elo e fundamento do Brasil que pretendiam, seguindo o slogan "abrasileirar o Brasil". Ao proibirem as línguas dos imigrantes, condenaram o Brasil ao monolinguismo. Pequena parte das escolas comunitárias sobreviveu à Era Vargas e foi o embrião do moderno ensino brasileiro, do fundamental ao ensino universitário.

As escolas do século 19 surgiram para responder a uma crise e à ausência de políticas públicas de educação. Olhando para os desafios de hoje, como a inclusão e as novas tecnologias, o que a gestão das escolas atuais ainda pode aprender com o espírito cooperativo daquelas primeiras comunidades?

Nas escolas surgidas há 200 anos, o pronome possessivo "nosso/a" foi de fundamental importância. Parte significativa do ensino privado ainda mantém essa tradição e segue se orientando nos anseios dos pais. São eles que colocam prioridades, além daquelas estabelecidas pelo Estado, pela indústria. Felizmente, algumas mantêm ainda o espírito humanista que esteve por trás das primeiras escolas.

 

 

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