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15/09/2026

Inteligência artificial já transforma a educação e desafia escolas a repensarem suas práticas

Karina Nazzari abordará o assunto no Seminário de Gestores do SINEPE/RS dia 24/09; inscrições para o evento estão abertas

por Bianca Zasso - Padrinho Conteúdo
 Inteligência artificial já transforma a educação e desafia escolas a repensarem suas práticas

A presença constante da tecnologia e o avanço das ferramentas de inteligência artificial (IA) passaram a ser mais um dos desafios a serem encarados pelas escolas. Para debater como essas transformações estão redesenhando a gestão e as práticas de ensino, o SINEPE/RS traz como uma de suas convidadas para o Seminário de Gestores a especialista Karina Nazzari.

Mestre e doutoranda em Educação e Saúde pela Unifesp e gerente de produtos da Cultura Inglesa, Karina vai apresentar aos participantes do encontro a palestra Escola do futuro: como a Inteligência Artificial está redefinindo a educação dentro da programação do seminário, que ocorre no dia 24 de setembro, no Instituto Rio Branco, em São Leopoldo. O evento faz parte de uma programação especial que celebra os 200 anos do ensino privado no Rio Grande do Sul. As inscrições estão abertas, clique aqui e garanta a sua vaga. 

O evento conta com o patrocínio do Santillana Educação, Sistema Etapa, Bernoulli Sistema de Ensino e Cultura Inglesa – Programa Bilíngue.

Em entrevista exclusiva para o SINEPE/RS, Karina antecipa alguns temas que serão abordados em sua fala. Confira:

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a fazer parte do cotidiano escolar de forma acelerada. Olhando para o horizonte dos próximos cinco anos, quais são as principais transformações que você antecipa para a Educação Básica e de que forma a IA vai redesenhar a rotina das salas de aula no Brasil?

Três acontecimentos das últimas semanas nos ajudam a responder essa pergunta. Em 1º de setembro, o Conselho Nacional de Educação aprovou o parecer com as primeiras diretrizes nacionais para o uso de inteligência artificial em escolas e universidades. O texto ainda depende de homologação do MEC, mas já sugere medidas a serem implementadas a partir de sua publicação no Diário Oficial. Entre elas, destaco a proibição do uso de IA para correção e atribuição de notas de redações e provas dissertativas em todas as etapas do ensino e proibição do acesso direto e sem supervisão a ferramentas de IA por crianças da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.

Uma semana depois, a OCDE divulgou o PISA 2025, que, pela primeira vez, faz a medição do uso de IA pelos estudantes. No Brasil, 48% dos jovens de 15 anos recorrem a chatbots pelo menos uma vez por semana para aprender, acima da média da OCDE. Apenas 11% dizem nunca os usar. E, nesta mesma semana, a UNESCO reúne em Paris mais de 25 ministros da Educação na Digital Learning Week, sob um tema que resume o momento: "Educação na era da IA: fatos, fricções e fronteiras".

Ou seja, a IA já está na sala de aula, ainda que sem qualquer decisão pedagógica da escola. Os próximos cinco anos serão, acima de tudo, o tempo de trazer esse uso para dentro da intencionalidade educativa. Nesse sentido, penso em quatro movimentos. Primeiro, as escolas vão precisar de uma política própria de uso de IA. Quais ferramentas entram, para quê, com quais dados e sob qual supervisão. Não como documento de gaveta para cumprir exigência, mas como parte do projeto pedagógico, discutido com professores, estudantes e famílias. Quem começar agora chega em 2027 organizado. Quem esperar a homologação vai correr atrás. Também é preciso nutrir e potencializar a criação de vínculos humanos.

Os professores seguem como fortes aliados na tomada de decisões sob responsabilidade humana. Mas é imprescindível que o professor compreenda e aplique as novas tecnologias de acordo com a política e planejamento da escola. A transformação real acontece quando o professor domina a ferramenta a ponto de decidir quando ela ajuda e quando ela atrapalha.

Avaliar o percurso e não somente a entrega final é outro ponto. Se metade dos estudantes já usa IA semanalmente, a pergunta é: "Como impedir?". Perdeu a validade. A rotina que vejo se desenhando valoriza o percurso: rascunhos comentados, defesa oral do que se produziu, resolução acompanhada em sala. Menos entrega final, mais evidência de pensamento.

Por último, a IA pode ampliar o alcance do professor, apoiar estudantes com deficiência e sustentar trajetórias diferentes numa mesma turma. Mas a aprendizagem não é só processamento de informação: envolve vínculo, frustração, escuta. Nenhum sistema substitui o adulto que percebe que algo não vai bem com aquele aluno. O que muda é o que a escola escolhe delegar às tecnologias e o que ela decide preservar como humano e, por isso mesmo, insubstituível.

Com ferramentas tecnológicas capazes de processar dados e gerar conteúdos em segundos, o papel do ensino formal passa por mudanças. Quais competências humanas e cognitivas passam a ser indispensáveis para os estudantes nessa nova realidade e como a escola pode garantir que a tecnologia potencialize a capacidade crítica dos alunos?

Penso que é fundamental investirmos nas interações entre as diferentes pessoas que compõem o ambiente escolar. Interações intencionais que promovam um processo de ensino-aprendizagem que celebre as diferenças, e que o debate de ideias possa ser estimulado, sendo os conflitos endereçados de maneira respeitosa, inclusiva e assegurando a segurança e a dignidade humana.

De uma perspectiva cognitiva, é importante estarmos atentos aos processos que promovem as aprendizagens, como, a atenção e a memória. Não me refiro a exercícios repetidos fora de um contexto e sem significado aparente no processo de ensino-aprendizagem, mas àquelas práticas que fortalecem novas conexões e vão construindo o pensar complexo, crítico e reflexivo.

É válido pontuar que o resultado do PISA 2025 identificou, na área de leitura, por exemplo, o declínio em algumas habilidades muito importantes na era de IA generativa relacionadas à avaliação de informações, ao estabelecimento de conexões entre múltiplas fontes e ao pensar criticamente sobre as nossas leituras. Sendo assim, é importante verificar como a habilidade leitora – que perpassa todas as áreas do conhecimento – vem sendo trabalhada no contexto escolar para promover uma melhoria dessas habilidades.

Muitos gestores ainda têm dúvidas sobre como aplicar a IA na prática sem perder a essência humanizada da educação. Há exemplos de inovação em que a inteligência artificial foi aplicada com sucesso, seja para apoiar o professor no planejamento ou para personalizar a jornada de aprendizagem? Se sim, você poderia compartilhar conosco?

Em entrevista ao Roda Viva, Paulo Blikstein, professor afiliado ao Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Columbia, defende que a IA generativa foi pensada para melhorar a “eficiência produtiva de adultos, e não para o desenvolvimento educacional.”

Nesse sentido, inovações que usam a IA como apoio para a eficiência podem ser benéficas para a experiência no processo de ensino-aprendizagem. Pensar na personalização de atividades para flexibilizar conteúdos para estudantes com necessidades educacionais específicas é um caso de sucesso. Isso porque, a partir de direcionamentos específicos construídos pela interação entre professores e estudantes, é possível criar materiais de apoio com muito mais agilidade e dar conta das diferenças em uma mesma turma.

Como o gestor educacional deve se posicionar diante da IA para liderar sua equipe pedagógica com segurança, ética e visão de futuro?

Como estamos em um momento em que o tema Educação e IA generativa parece estar na crista da onda, é importante que os gestores educacionais selecionem recursos validados e reconhecidos que contribuam para a sua informação e formação sobre o tema. Depois, é importante entender quais são as expectativas da comunidade escolar quanto ao uso de inteligência artificial generativa, identificando pontos que já ocorrem de forma alinhada à missão, visão e valores da escola e os pontos que precisam de ajustes e alinhamento.

Com esses dados em mãos e de forma colaborativa com os diferentes atores da comunidade escolar, vale traçar uma rota que pode envolver projetos interdisciplinares, formação de professores e de famílias, investimento em comunicação e reorganização e alinhamento das políticas pedagógicas existentes. Tudo isso com a dignidade humana no centro, em um ambiente inclusivo e de interações respeitosas. É assim que a aprendizagem acontece de forma integral: no entrelaçamento entre o que se pensa e o que se sente.

O que os participantes do Seminário de Gestores do SINEPE/RS podem esperar da sua palestra no evento?

Na minha palestra, quero convidar os presentes a pensar em diferentes formas pelas quais a inteligência artificial pode potencializar a nossa humanidade, permitindo que sejamos inteiros e que estejamos presentes no aqui e agora. Para isso, vamos olhar para o que a tecnologia faz bem, para o que ela não deve fazer e, sobretudo, para as decisões que precisam permanecer nas mãos das pessoas. Trabalharemos com exemplos concretos de planejamento docente, personalização da aprendizagem e gestão pedagógica, orientados pela pergunta: como as interações entre estudantes, professores e inteligências artificiais generativas contribuem para a melhoria dos processos de ensino-aprendizagem e de construção social de quem participa deles?

Vamos situar essa conversa no momento que o Brasil vive, com escolas e redes se preparando para acomodar as diretrizes aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação. Meu objetivo é que os participantes saiam da palestra com reflexões acerca desse cenário e com critérios próprios para decidir em seus contextos específicos. Afinal, o caminho a ser trilhado em cada escola precisa ser pensado, discutido e construído dentro da própria escola de forma colaborativa.

 

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