O legado e as transformações nas escolas privadas do RS seis anos após a pandemia
Gestores de escolas de diferentes pontos do Rio Grande do Sul refletem sobre os desafios e avanços do ensino privado gaúcho após a maior crise sanitária do século 21
Há seis anos, o som dos passos de estudantes rumo às salas de aula do Rio Grande do Sul foi silenciado pela pandemia de coronavírus. A covid-19 alastrou-se pelo mundo e medidas de distanciamento social precisaram ser implementadas em todos os setores da sociedade, inclusive nas escolas. No RS, as aulas presenciais foram suspensas em março de 2020 e as instituições de ensino precisaram adaptar-se a uma nova realidade. Hoje, de portas abertas, gestores de instituições de ensino de diferentes regiões do Estado refletem sobre os impactos, os aprendizados e o legado deixado pela pandemia.
O presidente do SINEPE/RS, Oswaldo Dalpiaz, lembra daquele período em que o sindicato precisou reafirmar o seu compromisso com a defesa do ensino de excelência das escolas privadas gaúchas, mesmo diante de adversidades. “É nessas circunstâncias que o SINEPE/RS toma posição e assume seu protagonismo de orientar suas associadas sobre a melhor forma de encarar o novo. E, aos poucos, não sem muitos sacrifícios, mas com serenidade e firmeza, orientou as escolas para um caminho aparentemente desconhecido, o que permitiu a continuidade do desenvolvimento de seus projetos pedagógicos”, reitera Dalpiaz.
Geonice Zago Tonini Hauschildt, diretora pedagógica do Pallotti – Colégio Antônio Alves Ramos e delegada regional do SINEPE/RS de Santa Maria, comenta que a pandemia evidenciou que as relações humanas e o vínculo afetivo são condições indispensáveis para a aprendizagem. A diretora ressalta que, a partir do isolamento social, ficou evidente o quanto a escola é, primordialmente, um espaço de socialização insubstituível, em que a educação vai muito além do simples repasse de conteúdo.
Além dos alunos, a diretora sublinha que a saúde mental dos professores também foi afetada pelo período de isolamento, uma vez que precisaram conciliar a vida familiar com a tecnologia educacional, resultando em aumento dos casos de ansiedade. Diante desse cenário, ela enfatiza que o bem-estar tornou-se uma condição básica para o trabalho pedagógico. Geonice também recorda a pressão social para o retorno das aulas presenciais, que foram retomadas gradualmente a partir de 2021, e reitera que a escola sempre acompanhou as orientações do sindicato.
“Antes da pandemia, dizia-se que a internet substituiria o professor. Mas com ela percebemos que não. Percebemos que o ensino presencial continua sendo essencial, e que a tecnologia precisa ter uma intenção pedagógica. Percebemos também a importância de uma formação contínua para os professores e o quanto a questão da saúde mental é importante”, avalia a diretora.
Impacto econômico e “salto digital”
O diretor do Colégio Marista São Luís, de Santa Cruz do Sul, e delegado do SINEPE/RS na região dos Vales, Nei César Morsch, relata que o colégio buscou o retorno presencial assim que houve a liberação, adotando rigorosamente todas as precauções e protocolos de distanciamento necessários para receber os estudantes com segurança. Do ponto de vista econômico, ele pontua que a pandemia trouxe desafios significativos: muitas famílias tiveram seus negócios prejudicados, o que resultou em uma diminuição no número de matrículas na época. Atualmente, a instituição vive um momento de recuperação desses indicadores em relação ao período crítico.
Morsch também frisa que, a partir da pandemia, o bem-estar psicológico tornou-se uma pauta constante nas mídias e dentro da própria escola, influenciando normas de regularização e o cuidado com a equipe do colégio. Um dos principais resquícios deixados pelo distanciamento social, segundo o diretor, é a dificuldade de transição do individualismo para o coletivo. Como ponto positivo, o diretor cita o "salto digital" impulsionado pela crise.
“A utilização de plataformas digitais para as aulas, para fazer reuniões e encontros online foi um ganho significativo que tivemos. Até hoje estamos economizando tempo com essa utilização da tecnologia. Foi um grande aprendizado”, comentou o diretor.
Volnei Mathies Filho, diretor do Colégio Sinodal Alfredo Simon, de Pelotas, e delegado da regional Sul do SINEPE/RS, comenta que o déficit de aprendizagem dos alunos da escola foi minimizado graças ao esforço e dedicação dos professores. Ele lembra que os docentes precisaram se reinventar em semanas, adaptando-se a novas ferramentas digitais sem um guia prévio. O diretor conta que, para enfrentar o desequilíbrio emocional de alunos e professores, a escola aumentou sua equipe de apoio, incluindo psicólogos e monitores.
Conforme o diretor, um ponto positivo da pandemia foi a maior valorização do trabalho docente pelos pais, que, ao tentarem ensinar os filhos em casa, perceberam a complexidade da profissão. Além disso, o delegado comenta que a gestão escolar amadureceu na tomada de decisões em cenários de incerteza, priorizando sempre o bem-estar e a aprendizagem dos estudantes como bússola para os caminhos mais ponderados. Ele salienta que a crise forçou o aprendizado, resultando em uma integração definitiva das plataformas digitais no cotidiano escolar.
“Aqui na nossa escola, usávamos muito pouco as tecnologias digitais, de maneira geral. O colégio já tinha o portal, já dispunha de plataforma digital pedagógica, mas o uso era muito incipiente, porque os professores entendiam que, no dia a dia da sala de aula, o livro físico, o caderno e o quadro eram suficientes. Mas logo no início da pandemia esses recursos não puderam ser usados, então tivemos que aprender a ferro e fogo a utilizar os meios digitais, algo que hoje se usa muito”, pondera o diretor.